A cúpula da CBF se interessou pelo trabalho da França, de formação de jogadores a partir do Instituto Nacional do Futebol, em Clairefontaine, a 50 km de Paris. A academia de formação foi inaugurada em 1988, para estruturar o desenvolvimento de jovens jogadores, até os 15 anos, quando se espalham pelos clubes.
Não é só. O instituto é parte de um complexo trabalho que ajuda a formar e desenvolver técnicos e profissionais de todas as áreas ligadas ao futebol. Desde 1998, por iniciativa do técnico campeão mundial Aimé Jacquet, também o Polo Francês Feminino de Futebol.
Até a criação de Clairefontaine, a França tinha só um título europeu, em 1984. Depois de 10 anos da criação, foi campeã mundial com Thierry Henry no elenco, um dos que passaram pelo processo de formação de talentos.
Das sete Copas do Mundo do século 21, a França disputou três finais, ganhou uma, perdeu duas.
Não se trata de copiar e ganhar tudo. O problema é que o Brasil ainda acredita no nascimento espontâneo de gerações de craques, porque se joga futebol em qualquer terreno baldio do país.
Os campos diminuem nas grandes cidades pelo aumento incessante das construções de arranha-céus. Crianças brincam cada vez menos com uma bola no pé e cada vez mais com um controle remoto de videogame nas mãos.
Significa a necessidade de aperfeiçoar o trabalho de descoberta e desenvolvimento de jovens jogadores.
Não é justo dizer que o Brasil não revela mais. Se há Vinicius Junior, Estêvão, Endrick e Rayan é porque talento continua existindo. A questão é organizá-lo, não desperdiçá-lo.
Há três anos, o Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP) associou-se à CBF Academy. Pelo contrato, fica com 84% da receita e a confederação com 16%.
A parceria foi decisão do ex-presidente da CBF, Ednaldo Rodrigues, que, mais tarde, permaneceu no cargo ancorado por medida liminar assinada pelo ministro Gilmar Mendes.
Gilmar é fundador e sócio do IDP.
Logo depois da queda de Ednaldo, Mendes declarou que a CBF procurou o IDP pelo prestígio do instituto e negou haver conflito de interesses.
Um ano depois, a gestão da CBF melhorou. Seria difícil ficar pior do que estava com Ednaldo Rodrigues, mas melhorou. Só que tem muita coisa para fazer.
A política de Brasília se apossou do prédio da Barra da Tijuca e há uma guerra jurídica com os blocos comerciais de clubes que tira atenção do que de fato é necessário realizar pelo futuro do futebol e da seleção.
A CBF Academy foi fundada em 2016, está completando dez anos e, diferentemente de Clairefontaine, o décimo aniversário não vem acompanhado de um título mundial, mas do maior fracasso em Copas do Mundo nos últimos 60 anos.
Se há uma academia associada a um instituto, a missão de CBF Academy e IDP só pode ser desenvolver o maior polo de cultura de futebol do Hemisfério Sul e das Américas. Foi o que a França conseguiu fazer em Clairefontaine.
Não precisa ser um ingênuo sonhador, um Dom Quixote da bola para acreditar nisso. Basta não ser burro. Se 25% da população do Brasil diz não torcer por clube nenhum, trazer 10% disto para dentro da economia do futebol significa ter mais 21 milhões de consumidores.
É por causa da economia, não apenas do idealismo, que o Brasil precisa voltar a ser o país do futebol. Das meninas e dos meninos, dos homens e das mulheres.
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