Copa do Mundo: Kardec envia sinais aos franceses – 13/07/2026 – Márcio Macedo


Escrevo esta coluna na segunda-feira, dia 13. O saudoso professor Zagallo acharia esse um dia perfeito para uma partida da seleção brasileira, considerando sua superstição em relação ao 13.

Os números finais do ano de nascimento de Zagallo, 1931, é o 13 ao contrário. Duas de suas vitórias mais marcantes em Copas ocorreram em anos cuja soma dos algarismos dá 13 (1958, onde 5+8=13, e 1994, onde 9+4=13). Zagallo morava no 13º andar, sua zona eleitoral era a 13ª e ele possuía uma casa na Gleba 13 em Teresópolis (RJ). O famoso bordão “Brasil campeão” e o apelido “Zagallo eterno” possuem exatamente 13 letras cada um.

A história da relação de Zagallo com o número começou com a sua esposa, Alcina de Castro, devota de santo Antônio, cujo dia de celebração é o dia 13 de junho. Zagallo e ela se casaram no dia 13 de janeiro.

Mas o lugar do número 13 na trajetória profissional e pessoal de Zagallo também pode ser entendido como uma espécie de invenção de tradição e uma estilização do mundo em uma narrativa individual.

Os historiadores Terence Ranger e Eric Hobsbawm publicaram nos anos 1980 o livro de ensaios “A Invenção da Tradição”, no qual mostram como várias tradições nacionais foram deliberadamente inventadas simbolicamente, enfatizando a relação entre passado, presente e futuro em uma comunidade nacional a partir de uma narrativa de pertencimento.

Se a gaita de fole e o uso de saias por escoceses simbolicamente definem o que é escocês, o Carnaval, o samba e o futebol definiram o que seria originalmente nacional no caso do Brasil.

E, se o futebol no Brasil se enquadra nessa ideia de uma tradição nacional inventada e sacralizada em cinco títulos mundiais, a Copa de 2026 deixa evidente que necessitamos urgente de uma reinvenção do futebol em terras tupiniquins.

É importante que olhemos para o futebol como uma possibilidade de transformação em aberto, e nisso a França tem muito a nos ensinar futebolisticamente. Há anos eles têm produzido não só o melhor croissant mas também um ótimo “football”.

A atual seleção nacional francesa é fruto de um projeto longo de reestruturação e reinvenção do futebol francês, que tem como morada o Centro Nacional de Futebol, em Clairefontaine.

O projeto foi elaborado durante a gestão de Fernand Sastre, presidente da Federação Francesa de Futebol, a CBF francesa, entre 1972 e 1984. Em vez de concentrar esforços em desenvolver uma seleção nacional, o objetivo do projeto foi criar um centro de excelência para o desenvolvimento de jogadores e técnicos a partir de uma identidade em comum.

Minha melhor analogia para pensar um futebol brasileiro reinventado é a nossa música. Precisamos de uma seleção brasileira que passe por um projeto de reinvenção e que venha a jogar tendo a sonoridade “samba-rock-funk” como inspiradora. Capital simbólico para isso nós temos.

O samba é nosso gênero musical autóctone, que nos permitiu fazer releituras locais do jazz, do funk e do rock estadunidenses criando estilizações locais, como a bossa nova, o samba soul, o samba jazz, o funk carioca, o funk ostentação e até mesmo o “proibidão”.

Nesta segunda-feira, dia da semana regido por Exu, o orixá mensageiro, Allan Kardec, pai do espiritismo, envia sinais do além: “Vive la France multiculturelle”.


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Fonte: Folha UOL

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