A Espanha está na final. A equipe anulou o poderoso time francês por meio da posse de bola e da troca de passes, como costuma fazer. Mais que isso. Quando não tinha a bola, se posicionava muito bem, alternando a pressão para recuperá-la rapidamente, com a marcação mais recuada para fechar os espaços.
A França não teve uma única clara chance de gol. A Espanha fez dois gols: um de pênalti, outro após uma bela troca de passes. E teve oportunidades para fazer o terceiro gol. Foi uma aula, um show coletivo, com ótimas atuações individuais, especialmente do meio-campista Rodri. A França decepcionou mais pela atuação coletiva da Espanha do que pela falta de inspiração de seus craques.
Rodri é o pêndulo, elo entre o meio-campo e o ataque. Ele se movimenta de um lado a outro da própria intermediária e inicia as jogadas com um ou dois toques na bola e passes precisos. Raramente erra um passe, pois não tenta o passe impossível. Quando é necessário, dá excelentes passes longos, de um lado para o outro ou para a frente. Craque não é só quem faz muitos gols.
Além de Rodri, a Espanha tem dois excepcionais meio-campistas: Fabián Ruiz, que iniciou o jogo, e Pedri, que entrou no segundo tempo. Isso é uma das principais deficiências da seleção brasileira, não ter um grande craque no meio-campo.
A derrota da França não diminui a qualidade de seus jogadores ou da equipe. A multicultural França passou a ter grandes jogadores por causa das escolinhas nas periferias, com a presença de um grande número de imigrantes e pela eficiência do projeto esportivo do Centro Nacional de Futebol, em Clairefontaine. O excepcional futebol francês não existe por acaso.
A Espanha vai enfrentar na final o vencedor entre Inglaterra e Argentina. As duas seleções não tiveram grandes atuações, mas, graças aos craques, à força coletiva, à capacidade de superar as dificuldades e ao acaso, são candidatas ao título. Não há favorito. São equipes diferentes no desenho tático e na estratégia.
A Inglaterra joga com quatro defensores, dois meio-campistas, um meia-atacante centralizado (Bellingham), dois pontas rápidos e dribladores e um centroavante (Kane), que se movimenta por todo o ataque. Já a Argentina atua com quatro defensores, quatro no meio-campo e dois atacantes pelo centro (Messi e Álvarez), sem pontas.
Enquanto a Argentina preenche mais o meio-campo para trocar passes e ficar com a bola, uma estratégia parecida com a da Espanha, até Messi recebê-la para acelerar em direção ao gol, a Inglaterra prioriza as transições rápidas e os lançamentos longos.
Por causa da enorme rivalidade, da Guerra das Malvinas e de jogos históricos —como no Mundial de 1986, quando Maradona fez dois gols inesquecíveis, um driblando vários adversários, até o goleiro, e outro com a malandragem de usar a mão—, os argentinos esperam uma grande vitória e uma excepcional atuação de Messi para homenagear Maradona. As comparações entre os dois fenômenos serão ainda mais frequentes.
Messi, por ter uma longa, espetacular e regular carreira, é mais craque. Mas os momentos deslumbrantes de Maradona são mais empolgantes e artísticos que os maiores de Messi. O craque atual representa a realidade, a razão, o máximo possível de ser feito, enquanto o grande Maradona simboliza a paixão, o tango, o trágico e o sonho impossível.
Muitos argentinos gostam mais de Maradona porque ele representaria a ambição, a inconsistência, a esperteza e a loucura humana.
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