Malvinas inflamam velha rivalidade Argentina x Inglaterra – 14/07/2026 – Esporte


Dentro do vestiário da Argentina, os jogadores comemoram a sofrida vitória sobre o Egito nas oitavas de final da Copa do MUndo, quando começaram perdendo por 2 a 0 e viraram nos acréscimos para 3 a 2.

Cantam a música “La cuarta estrella”, cuja parte final diz: “Soy argentino de la cuna/ Hasta el cajón/ Por Malvinas/ Por el Diego/ Por la última de Leo/ Argentina quiero verte bicampeón” (sou argentino do berço/ até o caixão/ pelas Malvinas/ por Diego [Maradona]/ pela última de Leo [Messi]/ Argentina quero te ver bicampeã).

No dia seguinte, o vídeo com o cântico veio a público e foi explorado por tabloides britânicos. Em letras garrafais, o Daily Mail estampou: “FOR THE FALKLANDS” (“pelas Malvinas”, com a ironia de terem trocado o que foi cantado pelo nome inglês da ilha).

E logo abaixo um subtítulo indignado: “A Fifa NÃO tomará medidas contra a Argentina depois que jogadores importantes entoaram uma música sobre as Falklands durante as comemorações no vestiário, após a vitória sobre o Egito”.

A menção às ilhas no extremo Atlântico Sul, que motivaram uma guerra por sua posse entre Argentina e Inglaterra em 1982, vencida pelos ingleses, não é novidade.

Na Copa do Qatar, disputada quando se completavam 40 anos da guerra, o hit da torcida argentina foi uma canção que começava dizendo: “Na Argentina nasci/ terra de Diego e Lionel/ dos meninos das Malvinas que jamais esquecerei”.

Mais popular e sensacionalista, The Sun adicionou gasolina ao clima da semifinal entre Argentina e Inglaterra, às 16h desta quarta (15), ao entrevistar combatentes ingleses da guerra, sob o título: “Os argentinos ‘infantis’ de Messi estão insultando os mortos, dizem veteranos das Falklands, em meio à escalada de tensão por causa do grito de guerra sobre ‘Malvinas’”.

O fato é que o cântico entoado pelos jogadores não foi o primeiro nem será o último, porque o tema está entranhado no futebol como em poucas searas.

“[Argentina x Inglaterra] é uma espécie de clássico estranho, porque nós, argentinos, continuamos reivindicando nossa soberania sobre as Malvinas, ocupadas ilegitimamente pelos ingleses. As músicas dos jogadores falam das Malvinas e as bandeiras das torcidas têm desenhos das Malvinas, é algo que acontece em todos os jogos do futebol argentino, não só nos da seleção”, disse à Folha o jornalista argentino Andrés Burgo, autor do livro “El Partido” [A Partida], que reconstrói o jogo da Copa de 1986 em que o time liderado por Maradona bateu a Inglaterra por 2 a 1.

No lendário confronto, pelas quartas de final, Maradona fez os dois gols, o primeiro de mão (que ele diria que foi “a mão de Deus”) e o segundo um golaço, depois de driblar meio time inglês. O livro de Burgo virou um documentário, exibido neste ano no Festival de Cannes.

“O futebol faz uma reivindicação permanente da nossa soberania sobre as ilhas. É bonito que os jogadores mantenham essa chama acesa. Acho que eles fazem mais pela causa do que a política argentina. Além disso, é um governo do Milei, que fala bem da [Margaret] Thatcher, sabe?”, afirma Burgo.

O lado inglês tem, como é de se esperar, outra visão. “A questão da soberania permanece sem solução para a Argentina, mas está resolvida para a Grã-Bretanha e para a comunidade das Falklands. O referendo realizado nas ilhas em 2013 teve como objetivo demonstrar essa determinação de permanecer sob domínio britânico. Os jogos da Copa tornam-se um canal para essa rivalidade contínua –e, para a Argentina, ajudam a reacender uma questão que permanece atual e relevante”, declarou à reportagem Klaus Dodds, professor de geopolítica na Middlesex University de Londres e autor de “Pink Ice: Britain and the South Atlantic Empire” (Gelo rosa, a Grã-Bretanha e o império do Atlântico sul).

Segundo ele, a boa relação entre o presidente argentino, Javier Milei, e o dos EUA, Donald Trump, e a indiferença do americano ao ex-primeiro-ministro Keir Starmer (que renunciou há menos de um mês), ajudaram a “reacender a esperança em alguns argentinos” sobre o tema.

Em abril, quando veio à tona um e-mail interno do Pentágono sugerindo a revisão da posição dos EUA sobre as Falklands como punição pela postura britânica em relação à guerra com o Irã, a Inglaterra reiterou sua soberania sobre as ilhas, e a Argentina pediu a retomada das negociações diplomáticas sobre essa soberania.

“Fundamentalmente, no entanto, os EUA não alteraram publicamente sua posição relativamente neutra e não hostil em relação às ilhas”, diz Dodds.

Em “Pink Ice”, o acadêmico aponta que, no futebol, a rivalidade entre os países é anterior à guerra. Para Dodds, ela começa na Copa da Inglaterra, em 1966, quando se enfrentaram nas quartas de final, vitória inglesa por 1 a 0, num jogo em que até hoje os argentinos dizem ter sido prejudicados pela arbitragem, alegando que, no gol da vitória, o inglês Hurst estava impedido.

“A situação envolvia queixas persistentes da Argentina de que havia uma conspiração anglo-alemã para negar ao país seu lugar de direito na final da Copa, pela arbitragem tendenciosa e a vantagem do time da casa. A situação foi agravada pelo fato de que Alf Ramsey, o técnico da Inglaterra, impediu os jogadores ingleses de cumprimentar seus adversários argentinos após a partida. Ramsey ficou famoso por chamar os jogadores argentinos de ‘animais’”, relata Dodds.

“O jogo coincidiu com uma tensão renovada em torno da questão das Malvinas e, alguns anos depois, um surto de febre aftosa no Reino Unido foi atribuído à importação de carne bovina argentina.” Para o estudioso inglês, o jogo de 1986, quatro anos após a guerra, “reacendeu tudo isso”.

Por todo o histórico, acrescido dos novos cânticos dos jogadores argentinos, Dodds opina que uma vitória da Inglaterra na semifinal “poderia ser vista, em certo sentido, como uma redenção”. “Jogadores e treinadores costumam dizer que é apenas futebol, mas os fatos e o histórico geopolítico sugerem o contrário. O futebol tem uma importância desproporcional na diplomacia e na política.”

O sociólogo argentino Pablo Alabarces, professor titular de cultura popular e cultura de massas na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Buenos Aires, minimiza a influência da retórica nacionalista tanto para a diplomacia quanto no desempenho dos times.

“A questão da soberania das Malvinas continua sem solução simplesmente porque existe uma ocupação colonial. Até que essa ocupação termine, a questão não será resolvida. Mas isso é um assunto de relações diplomáticas. O que também está claro é que a guerra foi um erro grosseiro que só serviu para suspender qualquer possibilidade de entendimento. Dito isso, o futebol não interfere absolutamente em nada na questão diplomática em relação às ilhas”, diz Alabarces, autor de “Futebol e Pátria” e “História Mínima do Futebol na América Latina”, entre outros livros.

“Ganhar o jogo não devolverá as ilhas, nem perdê-lo significará o fim da reivindicação. Não tem nada a ver. Claro, nunca vai faltar uma retórica nacionalista exagerada que misture as coisas, mas malucos existem em todo lugar”, provoca o sociólogo, autor de uma das mais saborosas boutades sobre a rivalidade entre Brasil e Argentina no futebol (“Os brasileiros amam odiar os argentinos, e os argentinos odeiam amar os brasileiros”).

Para Alabarces, a questão das Malvinas está sempre presente “porque faz parte do currículo escolar; em todas as escolas se ensina que as Malvinas são argentinas, que foram ocupadas pela Inglaterra e que, além disso, perdeu-se uma guerra iniciada por uma ditadura. Mas isso não significa que uma equipe se motive mais ou menos por causa disso. Acredito que, para essa equipe em particular, que é profundamente despolitizada, as Malvinas importam muito pouco”.

Ao comparar os craques das duas equipes em 1986 e agora, Alabarces comenta que “o estilo dos líderes influencia [apenas] dentro de campo. Fora de campo, falava-se de Maradona porque ele era uma grande voz nacional, popular, plebeia etc. Messi, como todos sabemos, mal abre a boca, e eu não conheço o tom de voz nem de Bellingham nem de Kane”.

O sociólogo e o jornalista argentino aprovam a atitude do técnico Lionel Scaloni de tentar minimizar a tensão, ao afirmar que trata-se somente de um jogo de futebol.

“Parece-me muito mais adequada e prudente. Mas para mim é absolutamente indiferente se os jogadores cantam ou não uma simples música de torcida, não muda nada, porque o foco ali não são as Malvinas, o foco é ganhar a Copa, e a metonímia de guerra é apenas uma figura de linguagem”, disse Alabarces.

Para Burgo, “Scaloni tem que ser politicamente correto. É a mesma coisa que Bilardo [técnico em 86] e Maradona fizeram antes daquele jogo. Você tem que ser um pouco mentiroso, tem que dizer o que convém, não a verdade, porque, se você disser que é mais do que um jogo de futebol, vai arrumar confusão. Mas todos sabemos que para Argentina e Inglaterra é muito mais do que futebol.”

Por fim, Alabarce discorda do inglês Dodds sobre a gênese da rivalidade futebolística entre Argentina e Inglaterra. “Não começa em 1966, mas sim, de forma imaginária, entre o final do século 19 e o início do século 20, porque a Inglaterra surgia como a inventora do futebol, e seus alunos queriam superar o mestre. O primeiro objetivo das equipes argentinas no início do século 20 era vencer um time britânico.”

A partida desta quarta será a sexta entre os países em Copas. A vantagem é da Inglaterra, que venceu três vezes, em 1962 (3 a 1), 1966 (1 a 0) e 2002 (1 a 0). A Argentina ganhou uma vez, no lendário jogo de 1986 (2 a 1), e houve um empate em 1988 (2 a 2, com os argentinos triunfando nos pênaltis por 4 a 3).



Fonte: Folha UOL

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