“Today is gonna be the day. That they’re gonna throw it back to you…”.
Os conhecidos versos de Wonderwall, um clássico dos irmãos Gallagher, lançado pelo Oasis em 1995, no icônico álbum (What’s the Story) Morning Glory?, tornaram-se a trilha sonora da campanha da seleção da Inglaterra nesta Copa do Mundo.
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A canção que por nove vezes conseguiu o disco de platina no Reino Unido e foi indicada a dois Grammys, inicialmente surgiu como uma carta de amor musical, mas depois passou a ser explicada como “um amigo imaginário que te salva de você mesmo”. Agora, empurra os jogadores e a torcida do país ao sonho de reconquistar a competição depois de 60 anos.
“É muito natural que uma música do Oasis seja escolhida para representar um time de futebol, porque ela traduz o caráter de seus fãs”, explica à PLACAR o jornalista de cultura pop e produtor Lúcio Ribeiro. “Costumamos dizer na música que o Oasis não tem fãs, eles são um time de futebol que tem uma torcida. As pessoas torcem pelos Gallagher, que são fanáticos pelo Manchester City, colocam o Guardiola no palco e a bandeira do City na bateria em todos os shows.”
Ribeiro pontua ainda que o recente retorno da banda potencializou essa conexão: “com a volta do Oasis e todos os shows de estádio esgotados, é muito natural que o futebol inglês abrace a banda neste momento de comoção”, completa.
Ingleses têm feito lindas festas nos estádios ao longo do Mundial – Cristóbal Herrera/EFE
O caminho para Wonderwall ecoar pelas arquibancadas começou quando o sistema de som do AT&T Stadium, em Dallas, tocou a música logo após a vitória por 4 a 2 do English Team contra a Croácia, na estreia do torneio. Enquanto agradeciam aos torcedores, jogadores e público passaram a cantar juntos, de forma uníssona. Viralizou nas redes sociais a imagem do atacante Harry Kane, principal nome da equipe ao lado de Jude Bellingham, paralisado e visivelmente emocionado ao ouvir a canção.
“A Inglaterra teve muitas músicas associadas à seleção ao longo dos anos, como ‘Three Lions’ (de onde vem o famoso refrão it’s coming home), ‘Sweet Caroline’ e ‘World in Motion’”, contextualiza James Sharpe, jornalista do Daily Mail Sports. “Quando ‘Wonderwall’ tocou após a vitória contra a Croácia, os jogadores foram até os torcedores. Foi um momento lindo, espontâneo, e a coisa pegou de vez dali em diante”, acrescentou.
A escolha quase involuntária por Wonderwall chama a atenção por superar hinos historicamente consolidados. Inicialmente, a Associação de Futebol da Inglaterra sugeriu três opções para o torneio: a própria faixa do Oasis, Sweet Caroline (de Neil Diamond) e Hey Jude (dos Beatles, em referência ao meia Jude Bellingham). Os jogadores, porém, bateram o pé pelo clássico de Manchester.
“Os jogadores pediram especificamente por ‘Wonderwall’. Ela já vinha sendo cantada em comemorações de títulos do Manchester City no vestiário, onde o Noel Gallagher sempre aparecia. É uma canção melancólica que acabou ganhando uma forte vibe de arquibancada”, explica Lúcio Ribeiro.
Embora hoje seja entoada por milhares de vozes presentes aos Estados Unidos e esteja diretamente ligada aos irmãos Gallagher, o termo Wonderwall vem originalmente do filme psicodélico e surrealista de 1968 de mesmo nome, estrelado por Jane Birkin, em que um vizinho abre buracos na parede para observá-la.
A trilha sonora do longa foi composta por George Harrison – marcando o primeiro álbum solo lançado por um integrante dos Beatles -, disco que Noel Gallagher, ávido colecionador, conhecia bem.
Emocionado, Kane comemora com os torcedores a classificação suada contra os mexicanos – José Méndez/EFE
No processo de estúdio, a faixa quase tomou um rumo comercial diferente. O título provisório original era Wishing Stone (“Pedra dos desejos”). No entanto, Noel substituiu a expressão pelo termo cinematográfico dos anos 1960. O ajuste resultou em seu maior sucesso de vendas na história, acumulando milhões de cópias físicas e bilhões de reproduções via streaming.
“Costumo dizer que torço muito pela Inglaterra na Copa, porque se eles ganham é legal pela cultura pop que eles levam à arquibancada, aos pubs e às manchetes dos jornais. Ao mesmo tempo, se perdem, também vira algo interessante de ver sob o viés pop, interpretando a derrota de forma artística. E eles têm feito isso desde 1966”, analisa Lúcio Ribeiro. “Por ser melancólica e esperançosa, Wonderwall funciona como um hino sobre salvação. É sobre acreditar que, apesar dos erros do passado, aquele time vai salvar você no final. É um It’s Coming Home envelopado pela cultura pop.”
Kane e Bellingham: prtagonistas da ba campanha do English Team – Cristóbal Herrera/EFE
Nizaar Kinsella, jornalista da BBC, complementa ao explicar que a canção também evoca um sentimento coletivo de união em um momento social e político delicado para o Reino Unido: “O Oasis se reuniu para a maior turnê da história da música britânica. Essa música traz uma nostalgia positiva que combina com a mentalidade do futebol inglês. É ter esperança de algo, tentar ser positivo, mas também emocional em relação a isso. Tornou-se uma espécie de tradição: a cada torneio, eles elegem uma canção. E ela ajuda a trazer sentimentos bons para o país, mesmo que o Reino Unido não viva o seu melhor momento.”
“É um clássico que todo inglês já cantou em um bar, karaokê, casamento ou chuveiro. Ela traz lembranças felizes para pessoas com mais de 35 anos. Quando foi lançada, nos anos 1990, o Reino Unido era um bom lugar para se viver, vivíamos a era ‘Cool Britannia’. Hoje, o país enfrenta preços altos, políticos incompetentes e serviços sociais sobrecarregados. Ela funciona como um escape para tempos mais felizes”, acrescentou Paul Hirst, jornalista do The Times.
Para seguir sonhando – e cantando -, os ingleses precisarão superar a atual campeã Argentina na semifinal, que será disputada nesta quarta-feira, 15, no Mercedes-Benz Stadium, em Atlanta, a partir das 16h (de Brasília). Se vencer, fará a final contra os espanhóis no domingo, 19.
Entre os torcedores, já corre o boato de bastidores de que, caso a Inglaterra chegue à grande final e conquiste o tão sonhado título, o sempre imprevisível Liam Gallagher deve quebrar o protocolo, descer ao gramado para cantar Wonderwall junto com o elenco e os presentes nas arquibancadas.
Mesmo com atrações de peso já confirmadas pela Fifa para a decisão no MetLife Stadium, como Justin Bieber, Madonna, Shakira, BTS e Coldplay, não há refrão mais aguardado do que este: “… and after all. You’re my wonderwall”.

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