O colega colunista Marcão Nogueira já deu a real no métier dele, a cozinha, sobre a dureza dos anos 80, esses agora da “trend”. Eram tempos precários comparados aos que viriam; não eram só anos pré-internet, eram pré-TV a cabo, pré-cartão de crédito internacional, pré-plano Real.
Na corrida, estavam para surgir as provas, os tênis de menos de 1 kg, as assessorias (a Corpore tinha uma pegada mais de atletismo), as academias de ginástica polivalentes –exceto a Companhia Athletica, em São Paulo, com Miguel de Oliveira como luxuoso professor de boxe.
O que havia era o “Guia Completo da Corrida”, o manual do estadunidense James Fixx, best-seller em seu país e aqui. Fixx perdeu 30 quilos com a corrida e viu na atividade a panaceia, mais ou menos como, no Brasil, a garrafada, o ginseng e o número 46 da Almeida Prado.
Cardíaco, Fixx morreria aos 52 anos, num cascalho bucólico pelo Vermont, repetindo o destino infausto do pai, cujo coração parou aos 43. No livro, o autor dizia que qualquer pessoa que não fumasse, independente da quantidade de Big Macs que mandasse para dentro, poderia completar uma maratona em menos de quatro horas.
Gosto particularmente do espírito “do it yourself” da obra, especialmente quando o autor sugere que cortemos nossas calças jeans para fazer um calção.
Foi Fixx o responsável por me fazer correr, pois não havia absolutamente ninguém no meu círculo que corresse –assim como não havia nenhum jornalista por ali, e mesmo assim eu já vou para quase 50 anos dessa guerra de guerrilha, caso o “Gênio Jornal”, que comecei a manuscrever aos 11, entre na contagem; o “GJ” ganharia uma versão datilografada logo depois, quando meu pai me deu uma máquina de escrever Olivetti, o melhor presente da minha vida.
Perdão pela digressão.
Durante as corridas, cumprimentávamos os corredores que cruzávamos na rua; e como era comum chamar a atividade de “cooper”, em tributo ao preparador físico Kenneth Cooper, o famoso criador do teste de 12 minutos, ao terminar o cascalho dizíamos ter o cooper feito.
Lembro-me de corridas curtas, talvez uns 5 km, pela avenida Sumaré e por seu prolongamento recém-construído, a Paulo VI, e depois até o Ibirapuera. Aos domingos, eu arregimentava um colega, filho mais velho do zelador do prédio, o Chico Spina (né Wellington Sobral). Voltávamos de ônibus.
(A Sumaré vem sempre à memória não só por ser cenário desses primeiros cascalhos, mas por servir de suporte de propaganda política. Numa certa manhã de 1982, o número 111 do ex-governador Paulo Maluf, então candidato a deputado federal, apareceu em todas as quadras da via, em pichações sobre o asfalto; naquela campanha, Pietro Maria Bardi escreveria seu famoso “merda” em vermelho sobre os nomes de outros políticos no muro do Masp.)
Um dia participei, sozinho, de uma prova longa, talvez uma meia maratona. Corri com um tênis que, se me lembro bem, era um Daytona –ou talvez um “alternativo” dele. Eu não tinha grana e meu pai faliu com a Olivetti.
O troço era apertado e me livrei dele pouco depois dos 10 km, na volta da Berrini e da favela que havia na Água Espraiada. Concluí a prova descalço. Foi minha primeira experiência barefoot –era tarahumara, não sabia.
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