Por Eduardo Luiz
24/10/2026
Acostumado com ajudas em campo, o Flamengo agora está tentando um favorecimento fora das 4 linhas. O famoso “tapetão”.
Na noite de sexta-feira surgiu a noticia de que a equipe carioca acionou a Conmebol pedindo para ser declarado vencedor da semifinal da Libertadores contra o Estudiantes. O motivo seria a escalação irregular, por parte do adversário, do zagueiro Marcos Rojo no jogo do Maracanã.
Para explicar toda questão, vamos à ordem cronológica dos fatos:
26/9: Gabriel Neves sofre uma queda e deixa o jogo contra o Rosario Central pela Supercopa Internacional (derrota do Estudiantes por 3 a 1) de ambulância com suspeita de fratura no punho esquerdo.
28/9: o Estudiantes confirma a fratura, informa a necessidade de cirurgia e projeta que o jogador perderá o restante da temporada.
30/9: Gabriel Neves passa pela cirurgia.
Com um jogador lesionado pelo restante do ano e com as semifinais da Libertadores pela frente (em 15 e 22/10), o Estudiantes entende que pode substituir Gabriel Neves na lista de inscritos acionando o dispositivo de troca extraordinária por lesão grave, algo previsto no regulamento.
9/10: o Estudiantes contrata Marcos Rojo junto ao Racing.
Já nos dias seguintes o Estudiantes tenta inscrever o jogador na Libertadores, mas a Conmebol rejeita. Rojo fica fora do jogo de ida, disputado na Argentina em 15/10.
O motivo da negativa: mesmo existindo no regulamento o dispositivo de troca extraordinária por lesão grave, a Conmebol alega que o clube argentino não comprovou a incapacidade de longo prazo exigida pela regra.
16/10: diante da negativa, o Estudiantes aciona o TAS, reconhecido formalmente pela Conmebol em seu próprio estatuto como a última instância para a resolução de disputas esportivas.
21/10: véspera do jogo de volta contra o Flamengo, o TAS concede uma liminar determinando que a Conmebol inscreva Marcos Rojo na Libertadores. A entidade acata.
22/10: inscrito legalmente, Marcos Rojo é titular no empate em 0 a 0 com o Flamengo; nos pênaltis o Estudiantes garante a classificação à final da Libertadores.
23/10: no dia seguinte à eliminação, o Flamengo aciona a Conmebol alegando inscrição irregular de Rojo, e pedindo vitória por 3 a 0 (como prevê o regulamento em casos assim).
No que o pedido do Flamengo é amparado:
A equipe carioca deixou vazar para jornalistas que na liminar concedida ao Estudiantes, o TAS condicionou a utilização de Rojo à inteira responsabilidade do clube, já que o mérito da questão ainda precisaria ser julgado.
Por que isso é frágil?
A liminar é uma medida legal e a Conmebol é subordinada ao TAS, logo não houve escalação irregular. Diferente da Conmebol, o TAS analisou os documentos e laudos médicos do Estudiantes e entendeu que a não inscrição de Rojo significaria um prejuízo irreversível ao clube.
Os próximos passos:
A Conmebol notificou o Estudiantes, que tem até às 18h de segunda-feira (26/10) para apresentar sua defesa. O caso será julgado por uma comissão disciplinar diferente da que vetou a inscrição de Rojo.
O trunfo do Estudiantes
Na Argentina, a ação do Flamengo está sendo encarada como choro de perdedor. Especialistas que analisaram o caso consideram extremamente difícil a perda da vaga na final via tapetão. Mas não por clubismo, e sim por causa de fatos. São eles:
- Rojo foi inscrito legalmente;
- Gabriel Neves de fato sofreu uma lesão grave.
A própria Conmebol reconhece em seus sistemas a legalidade da inscrição de Rojo. Sobre a lesão de Neves, a alegação é que não foi uma “fratura simples” de punho, como a sofrida por Arrascaeta em 28/9 (o uruguaio voltou a atuar em menos de 4 semanas justamente contra o Estudiantes).
Gabriel Neves sofreu uma “fratura de cúbito e rádio com deslocamento ósseo”. No futebol, em casos semelhantes, como de Puyol em 2012, Petr Čech em 2006, e Danilo em 2014, os jogadores ficaram afastados dos gramados de 70 a 90 dias. Contando a partir de 26/9, data da lesão, Gabriel Neves ficará fora de combate, portanto, até 5 de dezembro. Pelo menos. Ou seja, ele de fato perderá a temporada.
O trunfo (fraco) do Flamengo
O Flamengo também se ampara num caso de 2018 envolvendo o Santos e o jogador Carlos Sánchez. Na ocasião a Conmebol puniu a equipe paulista com uma derrota por 3 a 0 via tapetão por tê-lo escalado diante do Independiente, também na Libertadores.
Acontece que são situações juridicamente opostas: Sánchez estava suspenso e o Santos, sem qualquer respaldo, o escalou mesmo assim. Não foi um caso de inscrição irregular, como o Flamengo alega agora com Rojo.
O que pode acontecer?
A Conmebol pode reavaliar a primeira decisão que vetou a inscrição de Rojo, reconhecendo que havia motivo para a substituição de jogador através do dispositivo de troca extraordinária por lesão grave, o que resolveria o imbróglio logo de cara, ou pode entender que a reclamação do Flamengo não é válida, o que também encerraria o caso.
No improvável cenário de dar razão ao Flamengo, a Conmebol decretaria o time carioca finalista em uma canetada, e o Estudiantes teria de recorrer novamente ao TAS, onde já conseguiu uma decisão favorável.
Parte interessada, o Palmeiras ainda não se manifestou. Mas deveria. Futebol se decide em campo.
