CEO da startup Footbao quer revelar jogadores ‘invisíveis’ – 06/06/2026 – Mônica Bergamo


Quando Nick Rappolt desembarcou em São Paulo pela primeira vez, em novembro de 2023, ele não tinha nada a ver com o futebol brasileiro, esporte que agora, dois anos e meio depois, virou quase uma obsessão em sua vida.

Mas o empresário não quer saber do resultado dos jogos, da escalação dos times, e sim como arrumar posições em clubes profissionais para jogadores que não passam pelas tenebrosas peneiras, e acabam desistindo do sonho de uma vida inteira porque um time, ou uma pessoa, não as escolhe .

Rappolt tem um sonho improvável, mas não por isso impossível: usar a inteligência artificial para criar empregos, especificamente empregos como jogadores de futebol profissionais para jovens que tenham talento e garra para enfrentar os treinos, disciplina e vontade de vencer, mas que, por uma dessas coisas da vida, ficam de fora da lista dos olheiros ou das peneiras, métodos usados pelos clubes para selecionar jogadores e montar seus elencos.

O britânico de 50 anos, formado em filosofia e economia, se rebelou cedo contra os empregos formais que apareciam em seu caminho. “Eu não queria usar terno e gravata e passar o dia inteiro em um escritório”, contou ele em uma conversa na Soho House de São Paulo, um clube privado para pessoas que querem conhecer gente e ter um lugar agradável para trabalhar, fazer exercícios, nadar, comer bem e passar o dia.

A Soho House foi criada em Londres, em 1995, com o objetivo de juntar pessoas em trabalhos criativos, como jornalistas, gente da moda, do cinema, das artes e da publicidade. Além de Londres, há Soho Houses em Nova York, Los Angeles, Miami, Berlim, Istambul, Mumbai, Cidade do México e São Paulo. A unidade paulistana fica grudada dentro do complexo Cidade Matarazzo, ao lado do hotel Rosewood.

É no hotel de luxo que o empresário se hospeda em São Paulo, e é na Soho House que marca seus compromissos de trabalho.

Rappolt tem um currículo e uma história de vida impressionantes. Ele ajudou a lançar o Facebook no Reino Unido, trabalhou com as empresas de tecnologia Apple, Google e YouTube. Já criou e vendeu várias empresas – a primeira, aos 24 anos, foi comercializada três anos depois e deixou o empresário confortável financeiramente para o resto da vida.

Em novembro de 2023, com 48 anos e 25 anos de muito sucesso profissional, o empresário desembarcou em São Paulo tentando entender se fazia sentido investir tempo e dinheiro em uma startup de futebol criada no Brasil.

A startup é a Footbao, e seu projeto é audacioso: democratizar e ampliar o alcance de jogadores e de times, reféns dos sistemas tradicionais de scouting, que prospectam, avaliam e desenvolvem jogadores quase sempre com regras não muito claras, e fazer a ligação entre atletas e times contratantes, mesmo que estejam em outras cidades ou países.

“Tem muito jogador bom que se frustra nos processos de peneiras e acaba desistindo do esporte. E há times no mundo inteiro procurando essas pessoas”, diz Rappolt. “Nem todo mundo vai ser craque da seleção, mas há times europeus e no resto do planeta com carência de jogadores. Times de segunda ou terceira divisão podem ser uma ótima opção para quem não se qualifica nos principais, mas quer ter uma carreira no esporte”.

A ideia parecia simples, mas, na prática, se revelou dificílima. Quando chegou ao Footbao, no interior do estado de São Paulo, Rappolt encontrou um aplicativo com muitas falhas técnicas, e um mercado dominado por gigantes como TikTok, Instagram e YouTube.

“Eu dei meu diagnóstico: a ideia é muito boa, mas o produto atual não funciona. A tecnologia não é boa o suficiente e o modelo de negócio não vai gerar dinheiro.” Mas talvez por ter tantas promessas e tantas falhas, algo na proposta chamou a atenção dele. “Não era para fazer apenas uma rede social do futebol. O que me encantou foi a ideia de poder popularizar o talento”, diz Rappolt.

A sinceridade instigou os investidores, que dobraram a aposta. Entre eles estava Boris Collardi, ex-CEO do banco Julius Baer e investidor em diferentes projetos ligados ao esporte. Ele deu uma resposta direta: “Nós acreditamos nisso e acreditamos em você. Fique no Brasil e escale esse Everest.”

“Competir nesse mercado é extremamente difícil. Especialmente no Brasil, onde o uso de redes sociais é enorme. O futebol já está no TikTok, já está no Instagram. E conheço essas empresas, sei que para funcionarem elas precisam de bilhões de usuários”, disse Rappolt.

A troca de frases fortes marcou o início de uma reconstrução radical da Footbao —e da tentativa de transformar o Brasil no principal laboratório dessa tecnologia aplicada ao futebol do mundo. “Este país é o maior celeiro de talentos do esporte no mundo. Se a gente conseguir se firmar aqui, podemos replicar o modelo em qualquer lugar, em qualquer esporte”, disse o empresário.

O Footbao é um app como outro qualquer, você baixa no seu celular e tem uma navegação fácil e intuitiva. Logo na primeira página, o convite é explícito: “Seja a próxima estrela do futebol”. Tudo bem, propaganda vende sonho, a gente já sabe. Mas o app deixa claro quantas demandas ele conhece no momento (eram 38, em 10 clubes diferentes, até o fechamento desta edição).

Os jogadores, meninos ou meninas, sem limite de idade, criam seus perfis como atletas e postam cenas com suas jogadas como se faz no Instagram, e a IA analisa tudo o que pode analisar. Coisas como rapidez em campo, capacidade de antecipar os movimentos, reflexo, técnica de jogo. “A parte emocional de cada jogador, a IA não tem condições de analisar. E ainda bem, assim sobra uma margem de humanidade no processo.

O algoritmo, então, faz o que ele sabe fazer: começa a mostrar suas jogadas, gera visualização, interações, e assim o atleta pode chamar a atenção dos times e dos analistas que procuram talentos específicos. Os clubes também publicam suas demandas, como “buscando lateral esquerdo sub-17” ou “analisando atacante rápido”. Aí os interessados se candidatam enviando seu perfil. Se der match, tudo pode acontecer.

Até agora, oito jogadores foram contratados por meio do aplicativo, entre eles Léo Veiga, um meio-campista recém-colocado no time italiano Spezia Calcio, e a zagueira Glória Gasparini, de 18 anos, que entrou no Corinthians. O time italiano U.S. Lecce também selecionou jogadores por meio do Footbao para uma experiência na Europa, que está em curso.

O app já tem mais de 500 mil downloads, mais de 120 mil atletas registrados e 40 times parceiros, entre eles o Santos. Há clubes parceiros também no Uruguai, na Colômbia, na Argentina e na Itália.

“A tecnologia vai mudar o futebol como mudou os bancos”, acredita o CEO.

com DIEGO ALEJANDRO, JULLIA GOUVEIA e KARINA MATIAS



Fonte: Folha UOL

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