Série sobre Copa do Mundo de 70 anima jogador-defunto – 13/06/2026 – No Corre


Acho que a intenção dos idealizadores da minissérie “Brasil 70”, da Netflix, não era essa, mas eu não consigo ver finalidade melhor.

Quero crer que Carlo Ancelotti não terá à disposição durante a Copa nenhum material para suas preleções com o potencial dopamínico da minissérie. O penúltimo episódio, o jogo contra o temido Uruguai, é um verdadeiro levanta-defunto, se fosse de beber, seria um xarope de catuaba, um elixir da juventude.

Quem não der o sangue pelo Brasil depois de ver aquilo, melhor aposentar.

Colegas nesta Folha, inclusive Tostão, personagem que viveu a campanha do Tri como “falso 9” e é central na trama romantizada, tornado arquétipo pelos roteiristas por sua faceta divergente (leitor, politizado, com horizontes para além do futebol) e por ser “cria” do técnico João Saldanha, protagonista de um dos principais conflitos dramáticos da produção, contraponto a seu sucessor, Zagallo, já fizeram a exegese necessária: a minissérie tem inconsistências históricas, investe em conflitos possivelmente inexistentes, cria um Pelé que Tostão afirmou desconhecer. E é apelativa.

E é justamente aí, por ser apelativa, tão emocionalmente manipuladora quanto uma produção escandinava pós-Dogma, que ela pode servir à seleção de 2026, (quase) outra vez no México.

Filmes com atletas como protagonistas que se tornaram ferramentas motivacionais são carne de vaca. No boxe há a franquia “Rocky” e “Menina de Ouro”, a paulada de Clint Eastwood; no atletismo, de “Carruagens de Fogo” à cinebiografia de Abebe Bikila; no rúgbi, ou, melhor dizendo, tendo o rúgbi como vetor, há “Invictus”, a história da presidência de união nacional de Nelson Mandela.

Nenhum desses, contudo, é tão talhado para as demandas do hexa quanto “Brasil 70”. Trata-se, afinal, do time e da campanha que fez o futebol brasileiro ser o que é –o número 1, aquele a quem qualquer adversário deve, ou deveria, pagar respeito, mesmo na era pós 7 a 1.

Não bastasse isso, a produção recria os gols e as jogadas magistrais que, por mais que o futebol se tenha tornado outro esporte, muito mais físico —o que serviu para tornar os lançamentos de 70 metros de Gérson inverossímeis—, seguirão como lances de antologia quando, séculos adiante, um compêndio hipotético das muitas Copas do Mundo vier a ser produzido.

E há a espetacular semelhança dos atores com os craques, notadamente Pelé.

Diz-se que Carleto fala a língua da boleiragem, o que pode compensar algum desconhecimento sobre a cultura e as idiossincrasias brasileiras originadas no futebol (complexo de vira-latas, Lei de Gérson, “a senhora não sabe o que é um Corinthians x Palmeiras” etc.). Se o italiano ainda por cima usar essa creatina da Netflix, como no slogan da CazéTV, esquece.


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Fonte: Folha UOL

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