O tcheco que defendeu o São Paulo em um único jogo


Em toda a história, o Tricolor já contou com 13 jogadores nascidos na Europa, a maioria deles (nove), imigraram muito jovens para o Brasil e possuíam, também, nacionalidade brasileira. Nos últimos anos, outras três atletas (Juanfran, Jamal Lewis e Cédric Soares) passaram a compor esse grupo de maneira distinta, chegando ao São Paulo com carreiras já estabelecidas no velho continente.

Um profissional, contudo, se distingue desses antes mencionados: František Šafránek (cuja pronúncia é algo como Frantíchequi Chafrânequi).

No dia 24 de junho de 1964, no último jogo da famosa excursão invicta do Tricolor à Tchecoslováquia, Alemanha, França, Bélgica, Alemanha e Itália – que renderia à equipe o apelido de Furacão da Europa e uma Fita Azul condecorativa –, o São Paulo se encontrava desgastado pela rotina massiva de partidas e viagens (foram 12 jogos em um mês e meio, fora os traslados) e desfalcado de vários jogadores, como Benê e De Sordi.

Sem ter quem pôr em campo em algumas posições para o derradeiro confronto contra o Milan, em Milão, o São Paulo teve que apelar aos compatriotas do Madureira e aos tchecoslovacos do Dukla Praha – que por lá também excursionavam – e solicitar o empréstimo provisório de dois atletas: Zezé, atacante; e Šafránek, defensor.

František Šafránek, nascido em Praga, no dia 2 de janeiro de 1931, era um lateral ambidestro que atuava pelas duas beiradas do campo e que fora um jogador de renome da seleção tchecoslovaca. Ele foi convocado para duas Copas do Mundo (1954 e 1958, na primeira, entrando em campo em duas partidas) e para a Eurocopa de 1960 (em que a Tchecoslováquia alcançou o terceiro lugar). Ao todo, disputou 22 partidas e marcou um gol.

Por clubes, iniciou a carreira esportiva nas categorias de base do Vršovice e subiu aos times principais pelo Spartak Sokolovo, em 1949. Três anos depois ele se transferiu para o Dukla Praha, que então chamava-se ATK Praha (posteriormente, ainda ganharia o nome de ÚDA Dukla).

Um dos grandes méritos esportivos de Šafránek era o chute forte, como no gol marcado de falta, de mais de 40 metros de distância, contra o CDNA Sofia, da Bulgária, que decidiu a classificação do time de Praga à Copa dos Campeões da Europa de 1961/1962.

Por seus companheiros, era considerado um exímio lançador, de passes bem precisos, algo alcançado por uma rotina de quatro horas diárias de treinamento. Fora dos campos, porém, sua paixão era outra: o violino.

“É por isso que seus amigos o apelidaram de Paganini (famoso compositor). Šafránek foi um verdadeiro artista, um músico, daqueles que não se vê muito por aí. Graduou-se em conservatório. Ele carregava o violino para todos os lugares e, a pedido dos ouvintes, tocava canções folclóricas de Mozart, valsas de Beethoven, e mesmo sucessos da moda mais recente, como Smetana. Após os treinos, enquanto os companheiros relaxavam, ele praticava violino”, resumiu a página do Uda Dukla na internet, na galeria dos grandes ídolos.

Até 1966, quando deixou Praga, Šafránek conquistara oito títulos nacionais pelo Dukla, com 238 partidas de Liga e 28 gols. Seguiu a carreira no Spartak de Vlašim e aposentou-se no Strašnice, em 1976.

Amou tanto o futebol que faleceu o praticando em uma partida de veteranos do Dukla, em 27 de junho de 1987.

24/06/1964. Amistoso Internacional: Jogo Único.
Milano (Itália), Stadio Giuseppe Meazza – San Siro.
MILAN 0 x 1 SÃO PAULO

SPFC: Suly; František Šafránek, Bellini e Virgílio; Leal e Jurandir; Faustino, Marco Antônio (Prado), Del Vecchio, Bazzaninho e Zezé. TÉCNICO: Oto Vieira. GOL: Leal, 10/2.

RIVAL: Balzarini; David e Pelagalli, Pini (Petrini, intervalo), Maldini e Bacchetta; Hamrin, Ferrario (Gallardo), Altafini, Rivera e Amarildo. TÉCNICO: Carniglia.

ÁRBITRO: Bernardes (Italia).
RENDA: 15.201.000 liras
PÚBLICO: 18.074 pagantes

Quanto ao jogo que Šafránek fez pelo Tricolor, que o São Paulo venceu por 1 a 0, gol de Leal, cabe destacar o relato de Orlando Duarte para A Gazeta Esportiva, de 26 de junho de 1964:

“A vida apresenta fatos curiosos que as vezes sequer poderiam fazer parte de nossos sonhos. Foi o que aconteceu, por exemplo, com o zagueiro Šafránek, do Uda Dukla. Na primeira peleja do São Paulo, nesta excursão, lá em Praga, dia 9 de maio, no segundo período, aos dois minutos, Šafránek substituiu a Pluskal e atuou contra o Tricolor. Jogou bem e o São Paulo, apesar disso, venceu por 2 a 0. Anteontem, o clube brasileiro teve de recorrer ao Uda Dukla pedindo-lhe um zagueiro e veio Šafránek, que participou, assim, na última peleja da excursão. Desta feita, ele teve sorte, seu time venceu“.

“Šafránek fez logo ótimo ambiente entre os tricolores. Moço simpático, com 32 anos de idade, professor de violino, capitão do exército da Tchecoslováquia, bastante inteligente. Cercado pelo carinho dos são-paulinos, ele, em poucos minutos, sentia-se perfeitamente à vontade. O São Paulo, ao final do prélio fez-lhe presente da “camiseta 2” com a qual atuou, além do calção; e Šafránek teve um gesto emocionante. Beijou a camisa com os olhos lacrimejantes! Recebeu, igualmente, uma flâmula autografada pelos jogadores, dois quilos de café brasileiro, 40 dólares e mais alguns presentes“.

Dava gosto ver como Šafránek, através do pouco inglês que sabe e da mímica, procurava entender-se com os são-paulinos. Depois do prélio, até às três horas da madrugada, ele ficou conversando com Marco Antônio, Bazzani, Faustino, Leal e com os demais. Ficou à vontade e falou à vontade, mostrando toda a sua alegria por ter jogado por uma equipe brasileira. Fazia questão que lhe mandasse, do Brasil, uma foto da equipe com ele integrando a mesma. A presença de Šafránek nesta última peleja do S. Paulo marcou um capítulo bastante “sui generis” na excursão”.

Pouco se sabe da atuação específica do lateral tchecoslovaco contra o Milan em 1964 – que por sinal o São Paulo venceu, garantindo a invencibilidade da excursão –, mas, definitivamente, por acasos do destino, o nome dele também faz parte da história do São Paulo Futebol Clube.

Por Michael Serra / Arquivo Histórico João Farah





Fonte: SPFC

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