A Copa do Mundo é sempre uma janela privilegiada para a realidade de cantos que nem sempre a gente tem oportunidade de ver representados. Que nem sempre são objeto do interesse da “mídia” ou penetram as nossas bolhas.
A bela trajetória da seleção de Cabo Verde e o sucesso do goleiro Vozinha, por exemplo, serviram para apresentar muitos brasileiros ao fato de que aquele país é falante de português e tem antigas e permanentes conexões com o Brasil.
Outro dado interessante que veio à tona agora na fase de grupos da Copa é a ligação entre a língua oficial de Curaçao, o papiamento (ou papiamentu), e o português.
Para começo de conversa, vamos direto ao ponto com o nome da língua. Pois papiamento é um derivado direto do nosso verbo papear, com sentido de “bater papo”, “conversar”.
E não se trata de mera coincidência.
Pois o fato é que essa língua usada em Aruba, Bonaire e Curaçao (as ilhas ABC) é o que a teoria linguística chama de crioulo: um idioma que surge do contato entre línguas diferentes, tipicamente durante o processo colonial, mas não é pura e simplesmente uma mistura delas, ou o resultado da influência de uma sobre outra.
Crioulos são pequenas maravilhas da linguística, em que comunidades normalmente privadas de acesso formal à educação acabam forjando uma estrutura linguística própria, a partir, sim, de outros idiomas, mas que num sentido muito especial é menos “derivação” que “criação”.
Daí, inclusive, o uso de um termo como “crioulo”, ligado, lá atrás, ao nosso verbo “criar”.
O papiamento tem bases no português, no espanhol (às vezes é até difícil decretar se algo vem de uma ou outra dessas línguas) e também no holandês dos administradores coloniais dessa região.
O processo exato de formação histórica do idioma ainda é pouco claro. Ele parece ter surgido de um antigo crioulo de base portuguesa formado na costa da Guiné, mas também teria sofrido influência do português de escravizados levados para a produção açucareira da região.
Talvez tenha sido o resultado de um movimento triangular, em que escravizados brasileiros retornados à África levaram para lá sua versão do idioma, que no século 18 acabou chegando ao Caribe.
A essa base se somam também influências inglesas, de línguas locais, como o taíno, e africanas, como as do grupo quicongo ou o uólofe.
A história dos crioulos de base portuguesa (como o cabo-verdiano, língua primeira de quase todos os habitantes do arquipélago de Cabo Verde, tipicamente bilíngues, portanto) é infinitamente rica, e muito nela ainda está por entender.
Mas, do nosso ponto de vista, resta a maravilha de saber que, por mais que não possamos entender plenamente uma conversa em papiamento, ou em qualquer crioulo de base portuguesa ainda falado pelo mundo, somos capazes, sim, de perceber que o pronome “bo”, de segunda pessoa, é derivado do nosso “vós”, assim como “mi” (equivalente ao nosso “eu”) surge de “mim”.
Mais ainda, podemos ver que em “mi ta stima bo” esses dois pronomes aparecem (sem distinção de formas sujeito e objeto, como quase sempre nesses crioulos e, muitas vezes, no português brasileiro), com o verbo “estimar” devidamente sincopado ali no meio e aquele maravilhoso “ta” (quase certamente uma forma abreviada do verbo estar, exatamente como nós usamos), quase onipresente nos crioulos de base portuguesa, como partícula que marca o presente imperfeito ou habitual.
Ou seja: mim + estimando + vós. Ou seja: eu te amo.
