Com o Estádio do MorumBIS praticamente concluído e prestes a ser inaugurado oficialmente em 25 de janeiro de 1970, o São Paulo recebeu uma ilustre visita ao fim da temporada de 1969: a Seleção de Gana. Como neste dia 23 de junho a seleção africana enfrenta a Inglaterra pela Copa do Mundo de 2026, o Arquivo Histórico vale-se desse fato para relembrar o ocorrido há quase 57 anos.
O ano de 1969 foi pródigo ao Tricolor em termos de resultados e conquistas internacionais, como a vitória no Troféu Colombino. Para fechar bem a temporada, o clube aceitou fazer parte da turnê da seleção de Gana pelo Brasil. Foi a quarta partida dos ganenses em solo brasileiro (primeiramente perderam por 2 a 1 para a Desportiva Ferroviária, do Espírito Santo, depois empataram por 0 a 0 com o Fluminense de Feira de Santana e, por fim, venceram a Seleção do Estado de Sergipe por 5 a 1).
Gana (ainda escrito como Ghana, conforme a ortografia da época), poucos meses antes havia sido eliminada precocemente das Eliminatórias da Copa do Mundo pela Nigéria, após uma derrota fora de casa e um empate em Accra). No Brasil, buscavam ampliar as noções do futebol, como forma de ganhar experiência para a disputa da Copa das Nações Africanas de 1970, que seria realizado no Sudão – Gana vencera esse torneio em 1963 e 1965 e buscava o tricampeonato.
Para um membro da comissão técnica dos Black Stars (Estrelas Negras, apelido oficial do selecionado ganês, em referência a estrela preta da bandeira do país), Ben Koufie, o importante era o contato com novas formas de jogar. “Para ele, a malícia e a improvisação que seus jogadores poderão aprender são mais importantes”, relatou o repórter do O Estado de S. Paulo de 6 de dezembro.

“Todos os jogadores são amadores. Uns trabalham para o governo e o nosso ponta-esquerda é chofer de caminhão. Todos trabalham e só tem tempo para treinos diários quando estão na seleção, pois o governo cuida para que eles sejam liberados nessas épocas. Quando estão servindo seus clubes, treinam uma ou duas vezes por semana, depois que saem do trabalho”, revelou o treinador da equipe estrangeira.
O Asante Kotoko (vice-campeão africano de 1967 e futuro campeã de 1970) e o Hearts of Oak eram os clubes bases da equipe de Gana, que possuía como maior característica a velocidade, concentrada em ataques pontuais e certeiros. Já o São Paulo, do técnico Diede Lameiro, era conhecido pela cadência de jogo.
O Tricolor estava bem em ritmo de fim de ano, com muitos jogadores voltando de contusões e sem ritmo, como o goleiro Picasso, o meia Gérson e o centroavante Toninho Guerreiro. De toda maneira, foram chamados para a concentração Picasso, Sérgio, Arlindo, Nenê, Dias, Tenente, Edson, Gérson, Benê, Nicanor, Zé Roberto, Toninho, Téia, Paraná, Wylherson, Vilela, Lourival, Babá e Toninho II.

Com a bola rolando, desde o começo o São Paulo percebeu que uma goleada fácil seria muito possível, quase que obrigatória. Com menos de cinco minutos de jogo, Gérson abriu o placar após uma triangulação com Toninho e Zé Roberto. Com mais cinco minutos de disputa, o Tricolor ampliou, desta vez com Toninho, que recebeu um cruzamento rasteiro de Nicanor (que talvez estivesse em posição irregular, mas quem vai saber…).
Na sequência, Zé Roberto perdeu um gol de bicicleta em que a bola passou tirando tinta da trave. Com o jogo tranquilo, e outras grandes chances desperdiçadas, o São Paulo se acomodou. Perto do fim da primeira etapa, então, veio o castigo, e Gana, por meio de Owusu – supostamente também impedido – em jogada de profundidade ganhou de Dias na corrida e chutou forte, quase no travessão, no meio do gol de Picasso. 2 a 1.
O tento renovou o animo e deu mais gás para os ganenses no segundo tempo. Afoitos, porém, ou acabavam sendo driblados facilmente, ou cometiam jogadas ríspidas e violentas. Procurando se poupar, o Tricolor ia diminuindo o ritmo e quase não oferecia mais perigo. Aos 20 minutos, a insistência africana foi recompensada e, depois de um chute de primeira de Acquah, em cruzamento de Owusu, Picasso falhou e aceitou o gol, com a bola passando por debaixo do corpo do goleiro. 2 a 2.

Eis que, então, os tricolores acordaram para a vida. Passaram a atacar mais e a deixar de evitar divididas. Em uma dessas, porém, Toninho Guerreiro se deu mal e saiu de campo contundido, com uma forte luxação no tornozelo. Como o São Paulo já havia feito duas substituições àquela altura (o máximo permitido para um jogo oficial, na época), o time ficou então com um homem a menos em campo…
Ainda assim, o que se viu foi uma forte pressão são-paulina, que obrigou o goleiro Mensah a executar uma série de defesas em poucos minutos. Nenê, contudo, aos 36 minutos, enganou os adversários, em cobrança de falta ensaiada com Gérson, e recolocou o São Paulo à frente do Placar. Já perto dos acréscimos, os tricolores balançaram as redes mais uma vez, após pênalti cometido por Mingle em Gérson, que foi cobrado com categoria por Zé Roberto no canto direito do arqueiro africano. São Paulo 4 a 2!
Foi uma grande experiência para Gana. Dias depois, o selecionado também se bateria contra o Palmeiras, no Pacaembu (e perderiam por 3 a 1). Do Brasil, levaram boas histórias e experiências, que ajudaram o time a chegar novamente ao final da Copa Africana de Nações de 1970 – acabaram ficando com o vice-campeonato contra os donos da casa, o Sudão.

SÃO PAULO 4 x 2 GANA
06/12/1969. Amistoso Internacional: Jogo Único.
São Paulo (SP), Estádio Cícero Pompeu de Toledo – MorumBIS.
SPFC: Picasso; Arlindo, Roberto Dias (Cláudio Deodato), Nenê e Tenente; Édson Cegonha e Gérson; Nicanor (Valter Zum-Zum), Zé Roberto, Toninho Guerreiro e Paraná. TÉCNICO: Diede Lameiro. GOLS: Gérson, 5/1; Toninho Guerreiro, 10/1; Nenê (falta), 36/2; Zé Roberto (pênalti), 45/2.
RIVAL: Essel Badu Mensah; Edward Boye, Armah Akuetteh, John Eshun e Alex Mingle; Oliver Acquah, Joseph “Joe” Garthey, Cecil Jones Attuquayefio e Robert William Foley; Kwasi Owusu e Abukari Garibah. TÉCNICO: Karl-Heinz Marotzke. GOLS: Owusu, 40/1; Acquah, 20/2.
ÁRBITRO: Albino Zanferrari.
RENDA: NCr$ 10.480,00.
PÚBLICO: 2.300 pagantes

Por Michael Serra / Arquivo Histórico João Farah
