“Quanto?”
“Um a zero, gol do Vini Jr.”
“Não, para entrar.”
A funcionária do bar na Vila Madalena e o potencial cliente riram da confusão. A entrada para ver Brasil e Escócia no estabelecimento custava R$ 30, uma pechincha para a região —a maioria dos locais próximos, na esquina das ruas Mourato Coelho com a Aspicuelta, cobrava de R$ 50 a R$ 80 só para passar da porta para dentro.
O cliente, que ficou só no potencial, era o administrador Hugo Costa. Ele veio de Mogi das Cruzes (SP) a trabalho, com Yuri Kuhn, analista de sistemas.
Os dois assistiram ao início do jogo em um bar com acesso livre. Saíram para ver o restante da partida em outro estabelecimento e ficaram surpresos com a cobrança de entrada.
“Bem ruim. Você vem só para assistir ao jogo, mas aí fazem um pacote completo, tudo vira casa de show”, diz Kuhn. “Tudo tem que pagar”, completa Costa.
Dias antes, haviam viralizado nas redes imagens das fachadas de bares na Vila Madalena totalmente cobertas por lonas, para impedir que quem passa pelas ruas do bairro boêmio na região oeste de São Paulo veja sem pagar, do lado de fora, os jogos do Mundial nos televisores e telões instalados nos estabelecimentos.
Vários comentários online reprovaram a prática.
“Que atitude mesquinha… Até para quem está dentro do bar fica mais desagradável.” “Que vergonha, um momento de união! O que a ganância faz…” “Eu sempre espero o pior de São Paulo, e ela sempre entrega.”
A Prefeitura de São Paulo, porém, disse que as lonas foram instaladas com o objetivo de evitar aglomerações.
A orientação foi repassada aos bares em uma reunião com representantes dos comerciantes locais, da PM (Polícia Militar), da GCM (Guarda Civil Metropolitana) e da CET (Companhia de Engenharia de Tráfego).
“Durante o encontro, foram apresentadas orientações aos comerciantes sobre medidas de organização e segurança para os dias de jogos. As instruções foram repassadas com base na Lei nº 16.642/2017”, diz a nota da subprefeitura de Pinheiros enviada à Folha.
Outros bares da região que não cobravam entrada, como o Empanadas, não instalaram lonas, mas tiraram as mesas da calçada, também para evitar aglomerações.
“Um revés enorme, né?”, diz Marcos Henrique, gerente do bar Ômadá, sobre a repercussão das imagens das lonas na internet. “Não é porque os bares querem restringir o acesso.”
No dia do jogo contra a Escócia, o estabelecimento cobrava R$ 80 de entrada, com samba ao vivo —pacote completo.
Gerentes e proprietários de outros cinco estabelecimentos no bairro confirmaram a reunião com a Prefeitura, mas não aceitaram gravar entrevista.
Havia fiscais municipais na região, mas eles atuavam para coibir o comércio ambulante, enquanto agentes da GCM focavam ocorrências policiais, como furtos. A função de espantar os curiosos do lado de fora fica sob responsabilidade dos próprios funcionários dos bares.
Depois do primeiro gol de Vini Jr., um pequeno grupo de transeuntes correu para rever o lance por uma fresta do Boteco Todos os Santos. Mas ninguém os repreendeu.
