O técnico cabo-verdiano Pedro Bubista citou por mais de uma dezena de vezes a palavra “sonho” durante a última entrevista coletiva na véspera da decisiva partida contra a Arábia Saudita, no NRG Stadium, em Houston. Não foi por um acaso.
A lembrança mais viva que o profissional de 56 anos carregava sobre uma Copa do Mundo remontava a uma televisão com imagens em preto e branco – a única que havia em toda a região em que nasceu, na Ilha de Boavista, em Cabo Verde. O aparelho pertencia a um imigrante que cobrava ingressos para que os moradores assistissem ao Mundial de 1982.
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“A notícia se espalhou pela ilha rapidamente, colorindo o sonho de todo o nosso povo”, contou Bubista em entrevista ao site Coaches’ Voice em maio deste ano.
“De vez em quando, conseguíamos dar um jeito de driblar o homem que ficava à porta, controlando as entradas, e entrávamos. Mas a alegria terminava rapidamente, quando nos expulsavam de lá”, complementou.
O sonho de Bubista em ver melhor a maior competição de futebol do mundo aos 12 anos, enfim, ganhou cores, sons, sentimentos e significados não só para ele como para toda a nação cabo-verdiana nesta sexta-feira, 26. Mesmo sem vencer, mas com um futebol eficiente, a equipe alcançou o histórico feito de se classificar à fase de 16 avos de final logo em sua primeira Copa.
Principal nome cabo-verdiano, goleiro Vozinha liderou os Tubarões Azuis – Carlos Ramírez/EFE
“Acho que [esse feito] é porque amamos o nosso país, temos muita paixão. Crescemos com muitas dificuldades, e nossos avós e nossos pais se sacrificaram muito para educar todos nós. Então, sabemos como valorizar as coisas. Acho que mostramos a resiliência do povo cabo-verdiano. Estamos aqui para representar não apenas os 26 jogadores, mas todos os cabo-verdianos no mundo inteiro. Somos pequenos, mas temos um coração grande e somos lutadores”, explicou o goleiro Vozinha, emocionado, após a partida.
A vitória, novamente, não veio. Mas e daí? Depois de segurar dois campeões do mundo – 0 a 0 contra a Espanha e 2 a 2 com o Uruguai – foi a vez de medir forças com a Arábia Saudita, outra seleção que sonhava com a classificação. E outro 0 a 0.
Não foi um jogo de encher os olhos. Disciplinada taticamente, a equipe de Bubista pouco liga em ter a bola no pé. Até mesmo diante dos sauditas, perdeu no quesito posse de bola, apesar do equilíbrio: 51% a 49%. Não há futebol arte ou grande craque. É um time de operários disciplinados – e apaixonados pela pátria.
Equipe titular de Cabo Verde que garantiu em Houston a história classificação aos mata-matas – Carlos Ramírez/EFE
“Talvez muitos de vocês pensem que o jogador cabo-verdiano não é bom o suficiente, mas viemos aqui para mostrar que temos muita qualidade e que estamos aqui para competir. Nossos atletas podem jogar em qualquer lugar, nas grandes competições ou ligas”, desabafou Vozinha.
O estádio em Houston, por sua vez, foi como um 12º jogador para os Tubarões Azuis. Cada projeção ao ataque era uma festa, cada bola roubada comemorada como um título… mas o melhor momento do primeiro tempos, curiosamente, foi o grito de jornalistas do país quando a Espanha marcou o primeiro gol – também anunciado pelos alto-falantes do NRG.
A forte linha defensiva formada por Wagner Pina, Pico, Diney e João Paulo foi protegida não somente pelo volante Kevin Lenini, mas por sacrifrícios coletivos até mesmo de jogadores tidos como mais técnicos, como Willy Semedo e Ryan Mendes.
Houve tempo para um festival de chances claras foram perdidas no segundo tempo, principalmente pelo atacante Nuno da Costa e o lateral Wagner Pina, dando ainda mais tons de drama ao feito aguardado pela maioria dos presentes ao estádio.
Ao soar do apito final, jogadores se reuniram em uma das laterais do campo e com o auxílio dos celulares aguardaram o término da partida entre uruguaios e espanhóis para, só então, começarem uma festa no gramado com direito a volta olímpica.
“O maior sonho de todo cabo-verdiano sempre foi disputar uma Copa do Mundo, algo que Cabo Verde jamais conseguiu”, dizia o treinador, pouco antes da Copa.
A classificação ao Mundial já significaria muito ao arquipélago próximo ao continente africano, que sofre com altos índices de pobreza, dificuldades logísticas e desafios maiores que praticamente todas as seleções que fazem parte da CAF (Confederação Africana de Futebol).
Antes de deixar Houston, a delegação cabo-verdiana passou pela zona mista, espaço dedicado para as entrevistas com os jornalistas, ao som de “Ninguem, Ninguem, Ninguem”, música do grupo La MC Malcriado, lançada em 2006, e cantada predominantemente em crioulo cabo-verdiano (ou kriolu), língua materna e pilar de identidade cultural de todos os nascidos no arquipélago.
Cabo Verde chegou, se classificou e, agora, terá pela frente a atual campeã Argentina. É permitido seguir sonhando. Por que não?

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