Comumente associados à alta performance em esportes de força e no fisiculturismo, os esteroides anabolizantes (EAs) são medicamentos que promovem o crescimento celular e o desenvolvimento de tecidos no organismo. Derivadas da testosterona, o principal hormônio sexual masculino, essas substâncias também são usadas por pessoas que não têm pretensão de ser atleta, mas buscam resultados rápidos na questão estética. Para o médico Paulo Muzy, a utilização desses recursos não garante resultados expressivos na academia.
“EAs não são garantia de ter um bom físico. Existem pessoas que usam e não saem do lugar. Chamamos eles de ‘non-responders’ [não responsivos na tradução livre para o português]. Também há pessoas que não são responsivas ao treinamento. Não quer dizer que elas não podem melhorar. Quer dizer que elas nunca serão atletas profissionais –mesmo usando as quantidades de drogas que um atleta profissional usa”, diz o profissional da saúde em entrevista à coluna.
Embora essa categoria de remédios tenha diversas aplicações médicas, seu uso para fins estéticos ou performáticos –o que inclui o esporte– é, além de arriscado para a saúde do usuário, proibido no Brasil.
Durante a conversa, o entusiasta e ex-praticante de fisiculturismo também relata que, atualmente, os novos usuários têm ainda menos receio com relação aos hormônios do que seus antecessores. Segundo Muzy, o “jovem que vai ao médico para conseguir uma receita de EAs não existe mais”.
O especialista em medicina esportiva completa que o jovem que busca resultados rápidos “já chega tomando” hormônios em seu consultório. Ainda de acordo com Muzy, isso ocorre “ou porque ele conseguiu comprar os medicamentos de alguma maneira [não a respaldada pela lei brasileira] ou porque alguém facilitou esse acesso”.
“Eles já chegam tomando altas doses. Eu apenas pergunto se eles conseguiram atingir o físico que queriam –o de um fisiculturista profissional– e eles me respondem que não. Muitos estão obesos, hipertensos, com resistência à insulina. Como se fossem idosos doentes. Envelhecem mais rápido e não atingem o físico que queriam. Alguns entendem o que eu tento dizer, outros vão atrás de algum médico que fale exatamente o que eles queriam ouvir. Muitas vezes, o paciente procura um médico não pela qualidade dele, mas sim pelo fato dele falar o que o paciente quer ouvir. E, cada vez mais, existem profissionais que estão dispostos a fazer isso”, constata.
O produtor de conteúdo também explica que, em sua visão, o abuso de EAs é um problema de comportamento, não geracional: “Quando você olha a pessoa mais jovem, que é mais suscetível a isso por conta da inexperiência, você observa que ela tem uma prática muito ousada. O adolescente não tem o córtex pré-frontal totalmente desenvolvido e, por isso, não consegue ter a real noção da possível repercussão de uma atitude que ele toma. Hoje, a gente tem uma quantidade de recursos praticamente ilimitada. O que você quiser saber, é só abrir a tela do celular que você encontra. Por que eu digo que não é um problema de geração, e sim comportamental? Porque existem pessoas mais velhas que fazem a mesma coisa. Você vê gente assim em todas as idades: na casa dos 20, dos 30, dos 40, dos 50, dos 60 anos. Talvez não veja na casa dos 70 porque essas pessoas não costumam viver até essa idade –justamente por serem assim”.
Ao falar sobre a dinâmica da internet, o médico fala sobre um eventual cenário fictício que foi criado acerca desse assunto: “O cara que se lasca nunca posta. A gente sabe que as redes sociais são redes de mentira. O cara posta só o que é interessante para ele, o resto ele não posta. Isso é preocupante pois vivemos numa era em que aquilo que não é postado parece não existir.”
Por fim, o profissional dá seu veredito: “Se você treinar e fizer dieta, seu físico muda. Se você ficar sentado, comendo salgadinho e tomando bomba, seu físico não vai mudar”.
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