Quando a reportagem da Folha se apresentou em um guichê de imigração para entrar nos Estados Unidos, na manhã de sexta-feira (5), a responsável pelo atendimento no aeroporto JFK, em Nova York, chegou a se atrapalhar. Na dúvida sobre os documentos que deveria exigir de profissionais de imprensa na cobertura da Copa do Mundo, consultou um colega e não soube dizer o nome do torneio: “You know, that big soccer thing”.
Você sabe, “aquele negócio grande de futebol” é o campeonato que terá início na próxima quinta-feira (11), com partidas realizadas nos Estados Unidos, no México e no Canadá. A maior parte dos jogos –78 dos 104– será em território americano, e a decisão está marcada justamente para a sede identificada oficialmente como Nova York/Nova Jersey.
É nessa região metropolitana que desejam estar os participantes do Mundial em 19 de julho, data da final, no MetLife Stadium, no município de East Rutherford. Mas nem mesmo na área do próprio estádio se vê o habitualmente festivo ambiente da competição, tratada com desdém por parte da população, ao menos neste momento.
“Se você perguntar para dez não latinos na rua, uns cinco não devem saber que tem Copa”, afirmou o brasileiro Vinicius Nascimento, 45, chef de cozinha que vive em Nova York há 14 anos.
Ainda que o futebol tenha crescido nos Estados Unidos, que conta com uma seleção feminina vencedora e uma liga masculina com estrelas mundiais como Lionel Messi, a modalidade não tem a popularidade do futebol americano, a do beisebol ou a do basquete. E o basquete de Nova York vive momento decisivo.
O tradicional New York Knicks está na decisão da NBA pela primeira vez desde 1999 e busca seu primeiro título desde 1973. A equipe venceu o duelo inicial da série melhor de sete contra o San Antonio Spurs e alimentou a expectativa na cidade, que não parece pronta para dar atenção ao futebol.
O amor do prefeito Zohran Mamdani pelo esporte não chegou àqueles que o elegeram em votação expressiva. Nascido em Uganda e torcedor do Arsenal, ele tem uma ligação firme com o futebol e batalhou com a Fifa (Federação Internacional de Futebol) para que ao menos parte dos ingressos tivesse preços menos escorchantes.
Ainda assim, em Nova York e nos arredores, não há entusiasmo.
No House of ‘Cue, misto de churrascaria e bar esportivo localizado no shopping em frente ao MetLife Stadium, as referências ao Mundial se resumiam na tarde de sexta a uma faixa com a propaganda de uma marca de cerveja, patrocinadora do torneio, na qual aparecia também a taça. Nos aparelhos de TV, sintonizados em diferentes emissoras, não se falava de futebol.
Na Fox Sports, o apresentador Colin Cowherd, do programa “The Herd”, comparava o armador Jalen Brunson, dos Knicks, a “quarterbacks” históricos do futebol americano. No “The Rich Eisen Show”, da ESPN, os assuntos eram a possibilidade de LeBron James se juntar a Stephen Curry no Golden State Warriors e o alto pedido de Austin Reaves para renovar com o Los Angeles Lakers. Ao lado dos televisores, na parede, havia um uniforme emoldurado do “running back” Ricky Brown, ídolo histórico do time da Universidade do Texas de futebol americano.
No próprio aeroporto, em notório contraste com o que se viu na Copa de 2022, no Qatar –e mesmo com o que se observou em 2024 nos Jogos Olímpicos de Paris, cidade que também flertava com o desdém em relação a seu megaevento esportivo–, havia poucos indícios de que falta menos de uma semana para o início do Mundial de 2026.
A Copa ainda não pegou no palco da grande final.
