Copa: Bouaddi ganha holofotes após atuação contra Brasil – 16/06/2026 – Esporte


Do ponto de vista da torcida verde-amarela, o primeiro jogo do Grupo C da Copa do Mundo levantou questões sobre as escolhas de Carlo Ancelotti e o desempenho dos jogadores do Brasil. Do ponto de vista dos torcedores de Marrocos e também na visão daqueles que observaram o duelo com algum distanciamento, saltou aos olhos o desempenho de Ayyoub Bouaddi.

O jogador de 18 anos foi, de longe, a figura mais imponente nas batalhas no setor de meio-campo. No empate por 1 a 1 no sábado (13), em East Rutherford, com a vitalidade correspondente à sua idade e uma tranquilidade surpreendente para um novato em ambiente de Mundial, saiu do jogo maior do que entrou.

“Não foi nenhum risco”, disse, impassível, o técnico Mohamed Ouahbi sobre a escalação do garoto. “Eu só olho a performance dos atletas, não a idade. Ele poderia ter 35. Se está bem, joga. O mesmo valeria se tivesse 17. Nós tínhamos certeza de que ele teria um grande jogo. Sabíamos. Então, não foi risco nenhum. Contra o Brasil, não era o tipo de jogo para assumir riscos.”

A declaração pode dar a entender que Ouahbi, que até março comandava a formação marroquina sub-20, tem um relacionamento bem estabelecido com o jovem. Ocorre que Bouaddi defendeu a França nas categorias de base e só no mês passado se juntou à equipe de Marrocos, após uma longa negociação.

Natural de Senlis, no norte da França, o jogador é um dos muitos filhos da diáspora africana. Como seus mais famosos companheiros de seleção, Achraf Hakimi e Brahim Díaz, estes nascidos na Espanha, optou por vestir a camisa do país de sua família. E agora tem um total de quatro jogos com o uniforme vermelho e verde.

Foram três amistosos antes da estreia na Copa, na qual seu desempenho apresentou um evidente contraste com o de Casemiro. A lentidão do brasileiro de 34 anos, sacado emergencialmente por Ancelotti no intervalo da partida no MetLife Stadium, ficou gritante nos embates com o camisa 6 de Marrocos.

“Diante de Bouaddi, as pernas de Casemiro pareciam pesadas; suas reações, vagarosas”, escreveu na ESPN americana o analista Ed Dove. “Do outro lado estava um jovem de 18 anos, o melhor jogador em campo. Um dos dois foi relegado ao passado do Manchester United; o outro está sendo cotado como parte do futuro da Premier League.”

O Manchester United anunciou na semana passada o adeus de Casemiro, embora tivesse a opção contratual da renovação por um ano. Bouaddi defendeu na temporada 2025/26 o Lille, seu time desde as categorias de base na França, e é alvo de interesse de várias potências europeias, uma delas o próprio United.

A disputa por seu futebol, que inclui também Arsenal e Paris Saint-Germain, não brotou no último fim de semana. O volante chama a atenção desde que estreou na equipe profissional do Lille aos 16 anos e três dias. No dia em que completou 17, em 2024, foi decisivo para uma derrota do Real Madrid de Ancelotti na Liga dos Campeões.

“A partida contra o Brasil foi uma das primeiras dele no futebol internacional [de seleções]. Mas, em termos de experiência, ele tem partidas no Campeonato Francês, jogou contra o Real Madrid. Tem 18 anos, porém muita experiência. Por isso, eu não fiquei impressionado. O que ele fez não foi nenhuma surpresa”, repetiu o técnico de Marrocos.

Uma porção de estatísticas demonstram a onipresença de Bouaddi no campo e sua eficiência –a especializada empresa Opta, por exemplo, mostra que ele venceu nove disputas em bolas divididas. Mas nenhum dado mostra que, já no fim do jogo, com a seleção africana pressionada na saída de bola, ele, antes mesmo de receber um passe de Youssef Belammari, aplaudiu o toque do companheiro.

“Ele sabia que tinha tempo e espaço para erguer os braços e bater palmas para Belammari até tocar na bola. Foi um momento que capturou perfeitamente sua atuação extremamente confiante no MetLife Stadium”, observou Conor O’Neill, no site The Athletic, do The New York Times, em texto que descrevia sua “aula de meio-campo contra o Brasil”.

Os aplausos não foram, claro, o lance mais impressionante do adolescente, chamado de “brilhante” pelo jornal inglês The Guardian e de “fenômeno” pelo italiano La Gazzetta dello Sport. Mas sua personalidade tranquila e sua conduta serena –em uma jornada na qual atletas bem mais vividos do Brasil citaram a ansiedade como empecilho– só deram mais certeza àqueles que nele botam fé.

Bouaddi preenche os requisitos hoje apontados como necessários para os grandes meio-campistas. Com suas passadas largas, preenche espaços e faz sua presença ser sentida de uma área à outra, com sua cabeleira esvoaçante. Diante da seleção brasileira, segundo a Opta, tocou 87 vezes na bola –só os zagueiros de amarelo encostaram mais nela, em toques estéreis.

O camisa 6 acertou 90% de seus passes e mostrou calma para sair de situações de pressão. Como mostrou calma, pouco antes de sua estreia como profissional no Lille, para vencer no Palácio Élysée, em Paris, um concurso de oratória. Estava na plateia a primeira-dama da França, Brigitte Macron, que ficou impressionada.

O jovem, que está estudando por um diploma em matemática e física, falou pouco em East Rutherford. Terminada a partida contra o Brasil, preferiu não demonstrar toda a sua capacidade retórica, dizendo-se apenas feliz com o interesse exibido por grandes clubes europeus. Foi seu futebol que começou a Copa falando alto.



Fonte: Folha UOL

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *