A emocionante história do senhor que foi ao Morumbis com cilindro de oxigênio


Muita gente viu, muita gente compartilhou, mas poucos sabem quem é o senhor que foi ao Morumbis assistir São Paulo x RB Bragantino com um cilindro de oxigênio a tiracolo.

 

O jornalista Matheus Gavazzo, da Band, foi atrás e descobriu uma emocionante história por trás do sr. Roberto, de 82 anos, vítima de um infarto, diagnosticado com câncer de próstata e com três AVCs recentes.

 

Eu não teria como escrever melhor a matéria. Veja na íntegra:

 

Não é só futebol. A frase pode parecer clichê, mas resume bem a história de Roberto, de 82 anos, torcedor do São Paulo que viralizou nas redes sociais depois de ser fotografado no Morumbi durante a vitória por 2 a 1 sobre o Red Bull Bragantino, no último sábado (29), acompanhado de um cilindro de oxigênio.

 

A imagem chamou atenção de milhares de torcedores, mas mostra apenas uma pequena parte do que Roberto enfrentou para estar novamente no estádio. Nos últimos anos, ele sofreu um infarto, descobriu que tinha apenas cerca de um terço da capacidade pulmonar, recebeu o diagnóstico de câncer de próstata, passou por uma internação grave, entrou em cuidados paliativos e sofreu três AVCs. Hoje, usa oxigênio 24 horas por dia e ainda convive com limitações de mobilidade.

 

Mesmo diante de tudo isso, a possibilidade de voltar ao Morumbi ao lado da família falou mais alto. “Eu achava que não ia dar mais tempo. Mas deu”, afirmou Roberto, em entrevista à Band.

 

Uma relação com o São Paulo que atravessa décadas

Roberto não consegue apontar exatamente quando começou a torcer pelo São Paulo. Para ele, a paixão existe “desde sempre”. O pai era são-paulino, assim como um tio que costumava levá-lo aos jogos ainda na juventude.

 

A primeira visita dele ao Morumbi aconteceu em uma data histórica. Em 2 de outubro de 1960, Roberto esteve no jogo que marcou a inauguração parcial do estádio, quando o São Paulo venceu o Sporting, de Portugal, por 1 a 0, com gol de Peixinho. Na época, ele tinha 16 anos.

 

Mais de seis décadas depois, Roberto ainda guarda detalhes daquele dia.

 

“Era um terço do estádio, era só cimento. Não tinha cadeira, não tinha nada. Mas foi um dia feliz naquela época, como foi sábado agora também”, relembrou.

 

Desde então, acompanhou o clube em diferentes palcos. Assistiu a jogos no Pacaembu, na Rua Javari e também no Parque Antarctica, em partidas disputadas pelo São Paulo. Viveu momentos históricos, grandes conquistas e períodos de dificuldade.

 

Entre tantas lembranças, as três Libertadores ocupam um lugar especial. Roberto também guarda na memória nomes marcantes da história tricolor e destaca Telê Santana como um dos grandes personagens da trajetória do clube.

 

“Todas foram intensas, mas as que mais me marcaram foram as duas Libertadores. O time era bom mesmo, tinha um excelente técnico, o Telê Santana, e ótimos jogadores”, contou.

 

A paixão permanece também nas fases ruins

A relação de Roberto com o São Paulo não depende dos resultados. Ele acompanhou períodos vitoriosos, viu o clube ser referência dentro e fora de campo e agora convive com um cenário bem diferente.

 

O torcedor lamenta especialmente a situação administrativa atual do São Paulo. Para ele, o contraste é grande em relação ao clube que conheceu em outras décadas.

 

“Eu lamento muito que o São Paulo esteja passando por essa situação administrativa. Eu sinto pelo São Paulo, que é uma potência e já deu exemplos melhores. O glorioso Tricolor Paulista servia de exemplo para as administrações de outros clubes e da própria imprensa”, afirmou.

 

Ainda assim, Roberto não condiciona sua relação com o time ao momento vivido.

 

“Eu vivi muito bem essa fase do São Paulo. A fase boa e estou passando pela ruim também. Faz parte da vida”, disse.

 

A forma como ele enxerga o futebol se mistura com a própria maneira de enfrentar as dificuldades pessoais.

 

“Torcer pelo São Paulo é estar ao lado e se sentir feliz sempre. Na dificuldade, na vitória e na derrota, que é exatamente o que eu sinto.”

 

Os problemas de saúde e a luta pela recuperação

A necessidade de usar oxigênio começou depois de uma sequência de problemas de saúde. Segundo a filha de Roberto, o primeiro grande susto aconteceu cerca de sete ou oito anos atrás, quando ele sofreu um infarto.

 

Durante a internação, a família descobriu que Roberto tinha apenas cerca de um terço da capacidade pulmonar. Ele fez fisioterapia, conseguiu se recuperar e retomou a rotina. Voltou a trabalhar e continuou responsável pela parte administrativa e contábil da rotisseria mantida pela família em São Bernardo do Campo.

 

Os anos seguintes foram mais tranquilos, até que novos problemas apareceram. Em novembro de 2024, Roberto descobriu um câncer de próstata e tinha tratamento previsto para começar em janeiro.

 

Antes disso, no dia 31 de dezembro, foi internado com uma suboclusão intestinal. Segundo a filha, o problema passou a pressionar o estômago e agravou ainda mais a condição pulmonar.

 

O quadro se tornou crítico nos primeiros dias de janeiro. Roberto teve momentos de melhora e piora, até que os médicos comunicaram à família que já não havia condições para novos procedimentos invasivos.

 

No dia 10 de janeiro, ele entrou em cuidados paliativos. A orientação passou a ser preservar ao máximo a qualidade de vida.

 

Pouco depois da conversa mais difícil que a família havia enfrentado até então, surgiu uma reação inesperada. Roberto acordou, sentou-se em uma poltrona do hospital e começou a ouvir Pet Shop Boys no Spotify.

 

“O pessoal no hospital fala que ele é um Highlander, porque é inacreditável a força que ele tem”, contou a filha.

 

A melhora, porém, ainda seria interrompida por mais um episódio grave. Dias depois, Roberto sofreu três AVCs na região frontal direita do cérebro, o que deixou sequelas no lado esquerdo do corpo.

 

Ele perdeu movimentos da mão e da perna, passou a ter dificuldades para falar, comer sozinho e até permanecer sentado sem apoio. A partir dali, começou uma nova etapa de fisioterapia e recuperação.

 

Oxigênio 24 horas por dia

Nos meses seguintes, Roberto passou por outras internações. Em uma delas, a saturação deixou de se manter em níveis adequados e ele precisou começar a usar um concentrador de oxigênio durante todo o dia.

 

Hoje, o aparelho o acompanha permanentemente, inclusive no banho. À noite, ele dorme com uma máscara conectada ao oxigênio para auxiliar a respiração.

 

Apesar das limitações, houve avanços importantes. Roberto voltou a conseguir permanecer sentado, ficar em pé e dar pequenos passos com auxílio. Segundo a filha, ele consegue se deslocar em trajetos curtos dentro de casa, sempre acompanhado do oxigênio.

 

A lucidez, segundo ela, nunca foi afetada.

 

“Ele é completamente lúcido. O médico fala que o corpo e a cabeça não se conversam, porque ele é extremamente lúcido.”

 

Desde junho, Roberto não precisou mais ser internado. A família mantém contato direto com a equipe médica e tenta preservar uma rotina o mais próxima possível do normal.

 

“Será que vai dar tempo?”

Depois de tudo o que a família viveu, uma pergunta passou a fazer parte do cotidiano: “Será que vai dar tempo?”.

 

Segundo a filha de Roberto, os últimos anos mudaram a maneira como todos enxergam oportunidades, passeios e momentos em família. A ideia passou a ser evitar adiamentos sempre que possível.

 

Não dá para deixar para o fim de semana que vem. Não dá para deixar para o mês que vem. Toda oportunidade que a gente tem de fazer meu pai e minha mãe viverem, terem momentos e recordações, mudou muito a nossa maneira de enxergar as coisas”, explicou.

 

Foi nesse contexto que surgiu a oportunidade de Roberto voltar ao Morumbi. Ele iria ao estádio com a esposa e dois netos, Maria e Luide, ambos são-paulinos por influência direta do avô.

 

Segundo a filha, a resposta foi imediata. Ele nem titubeou. Falou: ‘Quando? Para ontem. Estou pronto’.

 

A ida exigiu planejamento. Roberto mora em São Bernardo do Campo e sair de casa ainda é uma tarefa difícil. No estádio, ele contou com apoio dos funcionários do São Paulo para se deslocar até o setor onde assistiria ao jogo.

 

“Foi difícil ir ao estádio pelas condições em que a gente se encontra, mas fomos muito bem atendidos pelo corpo de funcionários do clube, que facilitaram nossas caminhadas pelo estádio até chegar às cativas”, contou.

 

Os lugares foram cedidos por um amigo de longa data de Roberto e também torcedor do São Paulo.

 

O avô que passou a paixão aos netos

A presença dos netos tornou a noite ainda mais especial. Maria e Luide torcem pelo São Paulo justamente por influência do avô.

 

Roberto se emociona ao falar sobre a possibilidade de levá-los ao estádio. Quando tinha a idade deles, era o tio quem fazia esse papel.

 

“Quando tinha a idade deles, eu assistia jogos no Pacaembu, na Rua Javari, no campo do Palmeiras. Meu tio me levava para assistir”, relembrou.

 

Décadas depois, era ele quem apresentava o Morumbi a uma nova geração da família.

 

“Acho que significou mais por causa dos meus netos. Fiquei muito feliz de poder levá-los ao estádio. Eles estavam muito doidos para conhecer o estádio”, disse.

 

O São Paulo ainda completou a noite com uma vitória por 2 a 1 sobre o Bragantino. “Passamos um pouco de sufoco, mas ganhamos”, brincou Roberto.

 

“O meu time me deu força”

O esforço para chegar ao Morumbi foi grande. Roberto reconhece que as limitações físicas tornaram o caminho mais difícil, mas diz que encontrou motivação justamente naquilo que o acompanhou durante toda a vida.

 

“Me deu forças para ir até lá, porque não foi muito fácil. Mas me deu muita força. E o que me deu força? O meu time. O meu time que me deu força e meus netos me empurrando”, afirmou.

 

“Eu sinto muita alegria, principalmente por estar lá no campo. Fico muito alegre de poder rever um jogo dentro do estádio. Fazia tempo que eu não ia. Agora foi mais difícil chegar, mas consegui chegar.”

 

O cilindro que passou a fazer parte da vida

O cilindro de oxigênio foi o detalhe que chamou atenção na foto que viralizou. Para Roberto, porém, ele não representa fragilidade.

 

“Espero que eles não vejam no cilindro um momento negativo. Muito pelo contrário, ele é muito positivo, porque sem ele eu não estaria falando com você agora.”

 

A filha conta que Roberto levou algum tempo para se adaptar à dependência de outras pessoas e equipamentos para sair de casa. Com o passar dos meses, passou a encarar essa ajuda de outra maneira.

 

Hoje, aceita usar a cadeira de rodas quando necessário, depende do auxílio da família e sabe que algumas tarefas levam mais tempo. Isso não o impede de tentar aproveitar as oportunidades que aparecem.

 

“Ele tem muita vontade de viver, muita vontade de colecionar memórias”, resumiu a filha.

 

A repercussão da foto

Roberto não imaginava que a ida ao Morumbi ganharia tanta repercussão. Depois que a foto começou a circular, recebeu inúmeras mensagens de apoio e carinho de torcedores.

 

“Não esperava tudo isso. Me deixou muito feliz esse reconhecimento, essas palavras de alegria, de força. Muita gente desejou muita coisa boa”, contou.

 

A repercussão também teve efeito direto sobre ele.

 

“Dá mais ânimo para viver mais um pouco, né?”

 

Entre todas as frases de Roberto, uma resume melhor o peso daquela noite. “Eu achava que não ia dar mais tempo. Mas deu. Deu tempo de voltar ao Morumbi, ir ao lado da esposa, levar os netos ao estádio, ver o São Paulo novamente em campo e comemorar uma vitória.

 

Para alguém que meses antes havia entrado em cuidados paliativos e enfrentado três AVCs, cada uma dessas experiências passou a ter outro significado.

 

“Gratidão, felicidade, alegria. É uma oportunidade que me foi dada e eu não deixei de aproveitar”, afirmou.

 

A imagem que viralizou mostra um senhor usando oxigênio nas arquibancadas do Morumbi. A história por trás dela mostra um torcedor que viu o estádio ser inaugurado parcialmente em 1960, acompanhou algumas das maiores conquistas do São Paulo e, 66 anos depois, encontrou forças para retornar ao mesmo lugar ao lado de uma nova geração da família.

 

Não é só futebol. Para Roberto, nunca foi.

 

Conclusão

Brilhante matéria. A melhor do ano, até então. Quero agradecer a gentileza do Matheus Gavazzi de me permitir compartilhar a história do sr. Roberto com todos os meus leitores. E um aviso: quando você quiser largar o Tricolor, volte aqui e releia a história.

 

Roberto: um dos maiores são-paulinos da terra.

 

 

Ele não era o
preferido na base!

 

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Saudações Tricolores!
Daniel Perrone | São Paulo Sempre!

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Fonte: São Paulo Sempre

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