(Texto adaptado do Guia da Copa do Mundo 2026 de PLACAR)
Showtime
Finalmente a bola vai rolar e o contexto político turbulento deve ficar em segundo plano. Na primeira Copa do Mundo com três países-sede e 48 seleções participantes, sendo quatro estreantes, são destaques as diásporas, o preço dos ingressos, as novas regras de arbitragem e a despedida de lendas da bola
Luiz Felipe Castro
O sarrafo ficou altíssimo levando em conta que o último jogo de Copa do Mundo foi a vitória da Argentina nos pênaltis contra a França, após um alucinante empate em 3a3, na final que valia o tri e fez justiça à grandeza de Lionel Messi, no Catar, em 2022. Um dos enredos mais fantásticos em quase 100 anos de torneio. O recomeço, portanto, pedia um cenário emblemático. O Estádio Azteca, na Cidade do México, onde Pelé foi coroado em 1970 e Diego Armando Maradona endeusado em 1986, será o palco da partida de abertura da 23ª edição do Mundial, em 11 de junho. O México receberá a África do Sul, num repeteco do exórdio de 2010, em ritmo de Waka Waka, ola nas arquibancadas e aquela nostalgia boa que nos envolve a cada quatro anos. Com 16 seleções a mais do que no modelo anterior, o evento organizado também por Canadá e especialmente pelos Estados Unidos (lar de 78 dos 104 jogos), durará cinco mágicas semanas, com a decisão marcada para 19 de julho, no Metlife Stadium, em Nova Jersey.
Quando a bola Trionda rolar, portanto, a expectativa é que os conflitos e polêmicas que cercaram a organização da Copa virem mera nota de rodapé. Não é a primeira e certamente não será a última vez que a organização de um Mundial é cercada de turbulências geopolíticas, mas desta vez houve risco real de ausência de uma das classificadas. A embaraçosa cumplicidade entre o mandatário da Fifa, Gianni Infantino e o presidente americano Donald Trump, foi um capítulo à parte. No dia do sorteio dos grupos, em dezembro passado, o dirigente ítalo-suíço chegou a conceder um incompreensível Prêmio da Paz ao amigo, que andava chateado por não ter vencido, veja só, o Nobel da Paz.
Poucos meses depois de dizer que o troféu de pacifista da Fifa era uma das maiores honrarias de sua vida, Trump lançou ataques coordenados junto a Israel que mataram o aiatolá do Irã, Ali Khamenei. A retaliação iraniana atingiu outros países do Oriente Médio, dando início a uma sangrenta guerra que poderia levar a boicotes, desistências ou exclusões do Mundial. Infantino teve de ser mais firme e conseguiu, ao menos até o fechamento desta edição, garantir a presença e a segurança da seleção iraniana, que fará seus três jogos de primeira fase em solo americano. Também arrefeceram as preocupações de diversas nações em relação a vistos e a uma possível repressão do Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas, o famigerado ICE, aos torcedores estrangeiros.
Outro bafafá diz respeito ao valor exorbitante dos ingressos, que pela primeira vez seguem a lógica dos preços dinâmicos, variando de acordo com a demanda. Os jogos da fase de grupo têm tíquete médio de 300 dólares (equivalente a R$ 1.620). Já há ingressos para a final sendo vendido por mais de R$ 150.000 reais. O crítico mais enfático da política de precificação da Fifa é Zohran Mamdani, recém-eleito prefeito da cidade de Nova York, que se identifica como socialista e é provavelmente o primeiro governante dos EUA a ter o que eles chamam de soccer como esporte favorito. Sua presença no Mundial deve causar barulho.
Zohran Mamdani fez críticas ao preço dos ingressos da Copa durante sua campanha – Divulgação
A história de Mamdani, nascido em Uganda, filho de pai ugandense e mãe indiana, se relaciona diretamente com a de centenas de atletas transnacionais convocados para esta Copa. No Mundial do Catar, 137 jogadores defenderam seleções diferentes da de seus países de nascimento. O número mais que dobrou em 2026. A ilha caribenha de Curaçao, por exemplo, estreará em Mundiais com quase todo o seu elenco formado por holandeses. Diversas equipes africanas também contam com os chamados filhos da diáspora. Mais do que nunca, o futebol se apresenta como um espetáculo, um negócio bilionário e instrumento de orgulho patriótico, tudo ao mesmo tempo.
Não sejamos ingênuos: a decisão de ampliar o número de participantes de 32 para 48 tem muito mais a ver com a ganância da Fifa do que com o bonito discurso de inclusão. Haverá mais jogos de baixa qualidade e de arquibancadas vazias, em uma nova fórmula de disputa. Agora, além das duas seleções mais bem classificadas de cada um dos 12 grupos, as oito melhores terceiras também avançam à segunda fase (32 anos de final).
Os critérios de desempate serão importantes: pontos, depois saldo de gols, gols marcados, cartões e, por último, se tudo ainda estiver empatado, o ranking da Fifa. A partir daí, seguiremos com oitavas, quartas, semifinais, disputa de terceiro lugar e final. Os finalistas, portanto, farão oito jogos, não mais sete. A arbitragem também traz boas novas. A partir de agora, escanteios e tiros de meta poderão ser rapidamente revisados pelo VAR, bem como a aplicação de um segundo cartão amarelo. Para dar mais agilidade ao jogo, haverá menos tolerância com a demora para cobranças de lateral e substituições. Rafael Klaus, Ramon Abati Abel e Wilton Pereira Sampaio serão os apitadores do Brasil na competição.
A expectativa é que, bem como ocorreu na Rússia de Vladimir Putin em 2018 ou em 2022, quando o Catar fez de tudo para limpar sua imagem, a bola role normalmente e os atletas sejam os protagonistas. Nos emocionaremos com grandes histórias e personagens, heróis e vilões, favoritos e azarões. Esta será a primeira Copa de Cabo Verde, Curaçao, Jordânia e Uzbequistão, e de jovens estrelas da bola como Lamine Yamal, Erling Haaland e o brasileiro Endrick. Também será a despedida (ou melhor, provável adeus, já que erramos ao aposentá-los em Copas anteriores), das lendas Lionel Messi e Cristiano Ronaldo, que podem se cruzar pela primeira vez em Mundiais a partir das oitavas e até em uma eventual final. Já pensou? Ainda nos despediremos de Luka Modric, De Bruyne, Salah e…Neymar!
Cristiano Ronaldo e Lionel Messi jamais duelaram em Copas; chegou a hora? – Getty Images
O mais talentoso e controverso astro canarinho nos últimos 15 anos contrariou as expectativas e conseguiu convencer o técnico Carlo Ancelotti que merecia uma vaga entre os 26 do Brasil. Titular ou não, em forma ou não, será entretenimento garantido. Protagonistas da última final, Messi, com 13 gols em Copas, e Mbappé, com 12, perseguem o recorde do alemão Miroslav Klose, que fez 16. Essa e outras marcas podem ser batidas no Mundial da América do Norte, cujas informações essenciais estão nas páginas a seguir.
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Capa do Guia da Copa de 2026, edição 1536 de PLACAR – Reprodução
