Brasileiro que atuou pela Japão explica evolução e meta ousada dos Samurais


Na última rodada da fase de grupos da Copa do Mundo de 1998, dois estreantes daquele mundial entraram em campo, Jamaica e Japão. A seleção caribenha ganhava por 2 a 0 da asiática, até que, aos 29 minutos do segundo tempo, Naoki Soma lançou da intermediária em direção a Wagner Lopes. O atacante brasileiro naturalizado japonês escorou de cabeça para Masashi Nakayama. De primeira, ele empurrou para o fundo das redes do goleiro Aaron Lawrence. Esse foi o primeiro gol japonês na história das Copas do Mundo.

“O Soma, que era o nosso lateral-esquerdo, fazia uma jogada: colocava na segunda trave e eu devolvia a bola de retorno para o outro lado. O Nakayama, que fez o nosso gol, ou o Jo, um deles estaria ali”, relembra Lopes, em entrevista exclusiva à PLACAR. “A gente treinava essa situação e eu até brinco: na verdade, eu cabeceei para o gol.”

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Aos 57 anos, o ex-jogador nascido em Franca (SP) projetou o duelo entre Brasil e Japão da próxima segunda-feira, 29, pela fase 16 avos de final da Copa do Mundo, e explicou por que a meta japonesa de ser campeão mundial até 2050 pode não ser um devaneio.

Atualmente, Wagner Lopes é técnico do Luverdense Atualmente, Wagner Lopes é técnico do Luverdense (Reprodução/Instagram/akidesiderio)[/caption]

Do São Paulo ao Japão

Lopes é hoje treinador do Luverdense, que disputa a Série D do Brasileirão. No entanto, ao final da década de 1980, ainda era um jovem recém-promovido ao profissional do São Paulo, em busca de espaço “numa época de ouro”, ele define. “Tinha seis jogadores na seleção brasileira e o Darío Pereyra na seleção uruguaia.” Especificamente, para a posição do atacante, havia Careca: “O cara me atrapalhava demais, não deixava eu jogar. E aí, é óbvio que é uma brincadeira, o Careca é meu amigo até hoje.”

À época, em conversa com Juvenal Juvêncio, o ex-mandatário pediu calma a Lopes, porque Careca seria vendido e ele teria a chance que queria. Mas, uma indicação do ex-zagueiro Tricolor e da seleção Oscar mudou os planos do jovem jogador: o Nissan Motors (hoje, Yokohama F. Marinos), precisava de alguém com as características do atacante.

“Eu digo que, se o Oscar pular do trigésimo andar, pode pular atrás, tem coisa boa esperando lá embaixo”, brinca o atual treinador. “Acabei aceitando a proposta. Porque, apesar de jovem, com potencial, eu sabia que, no São Paulo, naquele momento, seria difícil jogar. Falei: ‘Olha, eu vou para o Japão, aprendo outra cultura, outro idioma. Depois, daqui a três, quatro anos, quando voltar, ainda vou ter 21, 22 anos’”, explica. “Fui lá para jogar duas, três temporadas, acabei ficando 17.”

Do amadorismo-corporativo à J-League

Em 1987, Lopes desembarcou no Japão, cujo campeonato nacional de futebol era o Japan Soccer League (JSL), fundado em 1965 — torneio com times pertencentes a empresas, formados majoritariamente por funcionários dessas fábricas ou escritórios. Isso afastava o público, afinal, os clubes representavam corporações e não comunidades.

Na década de 1980, o país começou a sediar torneios internacionais, como a Copa Toyota, que colocava frente a frente os vencedores da Liga dos Campeões da UEFA e da Copa Libertadores da América. “A aproximação com grandes clubes fez diferença no desenvolvimento não só dos jogadores, mas dos treinadores”, aponta o ex-são-paulino. Somado a isso, também existia o intercâmbio de garotos japoneses para outros países, onde podiam jogar profissionalmente. Caso de Kazuyoshi Miura que, adolescente, chegou ao Brasil em 1982, passou por clubes como Juventus, Santos, Palmeiras, XV de Jaú, CRB, Coritiba e inspirou o personagem “Oliver Tsubasa“, do anime Super Campeões.

Nos campos pré-J-League, Lopes logo percebeu que os times japoneses se espelhavam muito no futebol europeu, com bolas longas e jogo aéreo. Mas, com o estilo de jogo da seleção de 1982 em voga e muitos brasileiros de destaque também seguindo a mesma rota que ele, a história começava a mudar. “O Japão entendeu como sendo um objetivo a ser buscado, esse jogo apoiado, de triangulações rápidas, ocupação de espaço de forma inteligente”, explica. “A partir do momento que grandes estrelas foram para lá, para ensinar o futebol, mostrar como o profissional se comportava dentro e fora de campo, a mudança foi gigantesca.”

Com as bases do novo campeonato lançadas, a profissionalização do futebol chegou de vez ao país. “A partir da J-League, eles começaram a prestar mais atenção na nutrição, na preparação física. Antes, treinadores de goleiro eram pouquíssimos. Para você ter uma ideia, a palavra ‘roupeiro’ pegaram do português, porque não existia roupeiro no Japão”, detalha Lopes.

Quanto à mentalidade, passou de meramente esportiva para business. “Você jogava bem, fazia gol, renovava o contrato. Depois, você vendeu tanto de chaveiro, a camisa foi a mais negociada na loja do clube, tem muitos fãs, renovava o contrato. Eles nos davam os números até para dar o aumento ou não. Tudo foi pensado não só para a população, mas, principalmente, para os torcedores.”

Segundo Lopes, com a J-League outro traço cultural japonês foi alterado. Anteriormente, poucos treinadores haviam jogado profissionalmente e, por isso, desconheciam a malandragem do jogo. Ele conta que, na época de jogador, por meio da patrocinadora Nike, ia até as escolas para ensinar futebol às crianças.

“Mas, entrava em conflito com o que o professor do ensino fundamental tinha ensinado: ‘Você não pode abrir o braço, porque vai bater o cotovelo no rosto do colega. No profissional, você abre os braços para proteger a bola, Fica na diagonal, não de costas. Era um conflito profissional com um conflito cultural”, explica. Com a ascensão de técnicos de uma nova geração que jogaram a J-League, a malícia futebolística passou a ser difundida. “Isso mudou completamente a maneira do japonês enxergar o jogo.”

E uma liga forte também se transforma em vitrine para o exterior. “Muitos jogadores [japoneses] foram para Espanha, Alemanha, Portugal, França, Itália, Inglaterra, grandes ligas. Conforme viam, traziam informações. Cada país contribuiu de uma maneira para que a J-League virasse o que virou.” O principal jogador japonês, Hidetoshi Nakata, de vasta trajetória no futebol italiano, se aposentou na derrota por 4 a 1 para o Brasil em 2006, único confronto entre os países até o da próxima segunda-feira, 29. 

Lopes ainda cita a influência maior de um brasileiro específico em todo esse processo: “O Zico é o brilho expoente disso tudo, é a grande estrela da J-League de todos os tempos. Prova disso é que ele é até hoje aclamado como o Kami-Sama [Deus ou divindade, em japonês] do futebol..”

Meta do Japão é ser campeão do mundo

Após estrear em Copas em 1998 e chegar às oitavas de final no mundial seguinte, o Japão traçou um plano em 2005: nos próximos 50 anos, buscaria ser campeão do mundo, a partir de uma intrincada rede de formação, que começava nas escolas e seguia até as universidades, com registro direto na Associação de Futebol do Japão (JFA, na sigla em inglês). “Foi feito todo um mapeamento dos jogadores que praticavam futebol no Japão”, conta Lopes. “Os jogadores lá na pré-escola, que já tinham fibra rápida, bom gesto técnico, conseguiam dominar, passar e chutar com os dois pés, eram pré-selecionados para a seleção sub-15, sub-17.”

Tal organização também exigia do profissional de futebol a formação acadêmica: “Antigamente, o jogador saía da escola no terceiro ano do ensino médio e ia para o clube. Hoje, ele só vai para o clube depois da faculdade”, explica o técnico do Luverdense. Esse foi o caso de Kaoru Mitoma que, só não foi para a Copa de 2026, por ter sofrido uma lesão muscular. No entanto, na época de formação, o atacante do Brighton, da Inglaterra, recusou um contrato profissional para cursar educação física na Universidade de Tsukuba, onde escreveu um TCC sobre dribles.

“De uns 10, 15 anos para cá, eles fazem jornada dupla: jogam pela escola e pelo clube. É uma junção da parte escolar com a parte profissional. O jogador vai ter uma formação, mas vai ter a malícia do jogador profissional. O fator educacional anda de mão dada com o profissional. Um trabalho muito bonito de se falar, mas muito difícil de ser executado.”

Com tudo isso, Lopes acredita que os japoneses conquistarão uma Copa no prazo estipulado de 50 anos: “Na minha visão, o planejamento é um dos pontos fortes do Japão.” Para ele, a J-League organizou a convenção, enquanto a JFA, o futebol. Por isso, faz questão de ressaltar que o sucesso japonês não é recente: “Esses caras estão jogando juntos há pelo menos cinco, seis anos. São jogadores que há muito tempo vêm performando em ligas que a gente não acompanha, mas que tem um potencial gigante. É uma sequência desse planejamento que eu estou falando, não é um acaso.”

Brasil x Japão, na Copa de 2026

Brasil e Japão duelam pelos 16 avos de final da Copa de 2026 Brasil e Japão duelam pelos 16 avos de final da Copa de 2026 (Reprodução/Rafael Ribeiro/CBF/X/jfa_samuraiblue)[/caption]

A seleção brasileira encara a japonesa pelos 16 avos de final da Copa, na próxima segunda-feira, 29, às 14h do horário de Brasília, no estádio de Houston. Lopes não desejava esse encontro. “Vai ser um jogo duríssimo. Não dá para falar que o Japão ganha, o Brasil perde, o Japão perde, o Brasil ganha. Velocidade, o Japão tem mais, entrosamento, o Japão tem mais. Só que eu acredito que o improviso do brasileiro ainda supera o improviso do japonês”, analisa.

O técnico alerta para uma das características mais eficazes da seleção de Hajime Moriyasu: “O Japão, muitas vezes, espelha o que o adversário faz. Corre muito no primeiro tempo para cansar, como aconteceu recentemente contra a Inglaterra. O que, para Lopes, é preocupante. “A transição ofensiva japonesa é muito rápida. Vai depender muito do ‘atacar marcando’ que o Brasil vai ter ou não, no balanço defensivo, se vai ter ou não.” Em resumo, ele acredita que o jogo será decidido com base na estratégia adotada por Ancelotti e por Moriyasu.

À seleção brasileira, Lopes destina a seguinte mensagem: “Gostaria de desejar muita sorte, que cada um faça o seu melhor, represente da melhor maneira possível os torcedores brasileiros, com raça, determinação, bondade e fé.

Já para os japoneses, ele diz: “ブラジルから 呂比須 ワグナーです 2026年 ワールドカップに出場する日本代表チーム全員の検討を祈ると共に 選手 一人一人が全力を尽くして優勝を目指して頑張ってください ブラジルから応援してますそんな簡単もんじゃないんですけどでも自分のプレイを信じて頑張ってください” Traduzindo: “Aqui é Wagner Lopes, do Brasil. Desejo a todos os membros da seleção japonesa que disputarão a Copa do Mundo de 2026, muita sorte. Espero que cada jogador dê o seu máximo e lute pela vitória. Estou torcendo por vocês aqui do Brasil. Não é fácil, mas acreditem no seu jogo e façam o melhor que puderem.”

Brasil x Japão, em Copas

As seleções brasileira e japonesa se encontraram somente uma vez na história das Copas do Mundo, em 2006, na cidade alemã de Dortmund.

Naquela ocasião, o Brasil goleou os Samurais Azuis por 4 a 1. Gols de Ronaldo (duas vezes), Juninho Pernambucano e Gilberto, enquanto Tamada descontou para os japoneses.

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Fonte: Placar

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