Como a Copa do Mundo funciona no subsolo de Houston


Ao chegar a Downtown, o centro nervoso de Houston – quarta maior cidade dos Estados Unidos -, é possível notar as ruas estranhamente vazias mesmo ao meio-dia. Na Main Street, considerada a principal do local, há poucas pessoas que trafegam pelos seus quase seis quilômetros.

Mas basta descer por um dos acessos ao subsolo para entender que há muita vida – e Copa do Mundo – a cerca de seis metros abaixo da terra. São os Houston Tunnels (Túneis de Houston), “a cidade debaixo da cidade”, como é conhecido o sistema de 10 quilômetros de extensão que conecta 95 quarteirões inteiros do centro.

“Se você passar na hora do almoço na Dallas Street, não vai ver trânsito, não vai ver pessoas na rua. E você vai dizer: ‘nossa, mas isso parece uma cidade fantasma’. É simples: o movimento está todo nos túneis. Ninguém precisa se expor ao calor ou ao frio; você consegue tudo aqui de forma confortável e segura”, explica o cozinheiro Ángel Gutierrez, de 47 anos, que trabalha em um restaurante cubano nos túneis.

Nos túneis, funcionam praças de alimentação completas, restaurantes, salões de beleza, serviço de correios, consultórios médicos, lojas e lavanderias. Uma válvula de escape para fugir da constante mudança de clima no Texas, que vai do sol extremo às chuvas repentinas no verão.

“Curiosamente, eu e meu marido trabalhamos com construção. Sou arquiteta e aqui há um espaço muito bem projetado, sem nenhuma infiltração de calor nem de umidade. Lá fora está chovendo e aqui parece que estamos em pleno conforto”, conta a mexicana Maggie Martínez, 30, que acompanhava na televisão de uma praça de alimentação a partida entre França e Senegal.

“Viemos de Monterrey para ver o ‘Robozão’ (Cristiano Ronaldo). O mais interessante é que, mesmo com o clima ruim para visitar parques ou outras partes da cidade, aqui tivemos a oportunidade de sair, conhecer e passear sem precisar nos molhar ou ficar desconfortáveis”, completa.

A origem dos túneis

Construído em 1930 pelo ex-governador do Texas, Ross Sterling, para conectar dois de seus edifícios – o prédio do jornal Houston Post-Dispatch e o Sterling Building -, os túneis são inspirados no Rockefeller Center, de Nova York. Diferente de outras grandes cidades, Houston não opera com metrôs subterrâneos, tornando possível o aproveitamento do espaço.

A ampliação começou pouco depois, quando o empresário do entretenimento Will Horwitz cavou um túnel conectando seus três cinemas em Downtown, para que os clientes pudessem transitar entre eles sem se expor ao forte calor.

“Os túneis foram projetados para ajudar os profissionais que trabalham aqui. Quando eles saem para almoçar, em dias como hoje, que está chovendo, não precisam ir para a rua. E como eles têm apenas alguns minutos, isso ajuda muito. Esses túneis existem há muitos anos, o problema é que muita gente não sabe disso”, conta o cabeleireiro Jorge Merino, 38, que mora há 30 anos na cidade.

Chuvas têm sido recorrentes nesta semana em Houston – Michael Wyke/EFE

“Só comecei a conhecê-los há dois anos. As pessoas me diziam: ‘você nunca foi lá embaixo?’. Até que um dia entrei e vi que há muita qualidade. Ajudam muito a população.”

Úteis até na Copa

Pela grande extensão do complexo, há mapas espalhados por todos os lados mostrando os acessos às ruas que ficam na parte superior. É possível chegar por eles às proximidades do Shell Energy Stadium, que abre as portas para torcedores assistirem aos jogos no telão, e da Fan Fest oficial da Fifa. Também não ficam distantes do NRG Stadium, palco dos jogos.

Antes da partida de estreia em Houston, entre Alemanha e Curaçao, em vários momentos os torcedores foram surpreendidos por oscilações do tempo: do sol de 33 graus a pancadas de chuva. O jogo não foi afetado pelo fato de o estádio contar com teto retrátil.

Torcida alemã fez a festa na partida de estreia no NRG Stadium - Sam Wassom/EFE

Torcida alemã fez a festa na partida de estreia no NRG Stadium – Sam Wassom/EFE

Nesta Copa, a cidade ainda receberá seis partidas: Portugal x República Democrática do Congo, Holanda x Suécia, Portugal x Uzbequistão, Cabo Verde x Arábia Saudita, além de dois jogos dos mata-matas: 16 avos e oitavas de final.

Houston já viu seu sistema subterrâneo sofrer com as chuvas. O caso mais famoso foi em 2001, durante a Tempestade Tropical Allison, quando as águas invadiram os túneis, destruindo lojas e o subsolo de prédios, o que exigiu anos de reformas e a instalação de pesadas portas herméticas anti-enchente em pontos estratégicos.

Os túneis fecham às 18h (horário local) e não funcionam aos finais de semana.





Fonte: Placar

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