Sempre estivemos, o Brasil, atrás dos desenvolvidos noruegueses em segmentos sortidos: PIB per capita, distribuição de renda, nível de emprego, expectativa de vida, segurança pública, infraestrutura logística, educação, tecnologia, inovação, sustentabilidade ambiental, cidadania e civilidade, entre outros aspectos econômicos, sociais e de desenvolvimento.
Até no futebol, área em que historicamente sobressaímos –na qual ninguém, em um retrato amplo dos acontecimentos, resistiu à “amarelinha”–, diante deles perecemos.
Só contra a Noruega o Brasil jamais venceu no ludopédio. Cinco partidas, nem uma única vitória. E desta vez a falta dela, diferentemente das outras vezes, que não resultaram em nada grave, vem com um fardo, com uma dor, que se eternizarão: a eliminação em uma Copa do Mundo.
Nos EUA, o inesperado–apesar do retrospecto desfavorável, o Brasil era favorito–, aconteceu: a seleção brasileira foi eliminada pela norueguesa. Caiu um dos nossos últimos bastiões. Resta o Carnaval. No Carnaval, ninguém nos supera nem superará.
Na partida em Nova Jersey, a temperatura não extrapolou os 30ºC, ajudando os gélidos noruegueses, que poderiam sofrer mais com o calor, mas pareceu ao mesmo tempo esfriar o ímpeto de Vinicius Junior e companhia, que, sem grande inspiração, sucumbiram ante a organização nórdica, comandada pelo ritmista e capitão Martin Odegaard e pelo “matador” Erling Haaland.
Explicações, sempre requisitadas, serão buscadas. O curto período (um ano e pouco) de Carlo Ancelotti à frente da equipe canarinho será uma delas. O treinador norueguês, Stale Solbakken, dirige os “vikings” há cinco anos e meio. Faz diferença? Sim.
Notadamente a Noruega tem um time mais preparado, mais ciente de suas ações em campo, que o Brasil. Isso cria-se, e amplia-se, com tempo de trabalho sob um mesmo profissional. Pode acontecer de imediato, com quem acaba de chegar? Pode, mas a chance é reduzida.
Não aconteceu com a seleção brasileira. Desde maio de 2025, quando assumiu no lugar de Dorival Júnior (um dos três técnicos do Brasil no ciclo, sucedendo Fernando Diniz, que sucedeu Ramon Menezes, interino após a saída de Tite, o treinador nas Copas de 2018 e de 2022), o italiano Carletto tem tentado, sem muito êxito, fazer a equipe atuar em altíssimo nível.
O Brasil até mostrou melhora nesta Copa. Depois de uma estreia preocupante diante de Marrocos, com uma primeira meia hora péssima no mesmo palco do embate contra a Noruega, marcou 3 a 0 tanto no frágil Haiti (não sem tomar pressão no final) como na freguesa Escócia (que entregou o primeiro gol bisonhamente).
Diante do Japão, na fase de 32, voltamos à realidade. Repetindo o time, esperava-se consistência. Faltou muito para isso. A classificação saiu a fórceps, no abafa, com um gol de Martinelli nos acréscimos. Não acontece toda hora.
Com a eliminação, resultando na pior campanha desde 1990 –quando o Brasil de Lazaroni ficou nas mesmas oitavas, batido por 1 a 0 pela Argentina de Maradona e Caniggia–, pergunta-se: quem é(são) o(s) culpado(s)?
De forma geral, a bagunça que a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) inoculou no ciclo 2023-2026 tem peso determinante no fracasso.
Carletto? Com um currículo invejável (cinco Champions League conquistadas como técnico), chegou como quem, em um passe de mágica, poderia resgatar o futebol-arte do Brasil. “Jogo bonito”, como ele gosta de dizer. Fazer são outros quinhentos.
Sem questionar a competência de Ancelotti, não o vejo como o mais indicado para isso. É italiano, e na Itália (que não se classificou para a Copa pela terceira vez seguida) pratica-se o futebol-força. Está no DNA.
Com contrato até 2030, ele terá um ótimo tempo para tentar botar o time nos eixos. Talento, Carletto diz que o Brasil tem. Precisa exercer. Ou não, e adotar o pragmatismo.
Os neste domingo (5) vitoriosos noruegueses são extremamente pragmáticos. Frios. Diretos. Tudo o que temos dificuldade de ser.
No calor da derrota, questiono: é melhor abdicar da ideia de jogo estético/lúdico/bailarino e implantar o objetivismo dos que nos suplantaram? Ou seguir esmurrando a parede com luvas de nostalgia na esperança de que ela caia e permita o triunfo do futebol-samba?
Em suma: como fazer nossa seleção voltar a ser campeã mundial? Está aberto o debate.
