Ninguém tem coragem de falar bem do Messi sem antes se explicar.
Você elogia um gol, um passe, um jeito de pisar na bola e, antes de terminar a frase, já vem a pergunta: então você torce pra Argentina? Não torço. Nunca torci. Mas por que essa pergunta chega tão rapidamente, tão pronta, como se admirar um jogador fosse prova de time, de nação, de lado?
Não sou só eu. Converso com gente que trabalha com futebol, gente que ama futebol, e todo mundo tem a mesma história: hesitar antes de postar, escolher a palavra com cuidado, quase pedir desculpa antecipada por gostar de um lance do Messi.
Isso não é normal. Time nenhum, jogador nenhum, deveria causar tanto medo assim de admirar em público.
Deixo isso claro, já que parece necessário.
Eu não sou torcedora da Argentina. E quem é, tudo bem. Torcer pra Argentina não deveria dizer nada sobre o caráter de ninguém, do mesmo jeito que torcer contra ela também não diz. Mas virou. Virou teste. Fala mal, está do lado certo. Fala bem, vira suspeito.
Isso é estranho, se pararmos para pensar. O futebol sempre foi sobre escolher um dos lados —mas escolher lado num jogo, não numa disputa moral. Gostar de um time nunca foi sobre ser boa ou má pessoa. Só que, nesta Copa do Mundo, todo elogio ao Messi virou terreno minado. Todo elogio, “que jogador!”, virou motivo de debate. E debate, aqui, parou de ser conversa. Virou disputa.
Eu vejo isso toda vez que escrevo o nome dele. A reação nunca é sobre o que eu disse. É sobre o que presumem que eu quis dizer. Como se elogiar fosse sempre uma atitude incompleta, sempre escondendo um recado maior. Como se ninguém pudesse simplesmente admirar sem estar, no fundo, torcendo por alguma coisa.
Cansei dessa lógica. Admirar não é posição política. É reconhecer o que é bom quando aparece na sua frente. É poder dizer “que jogada linda” sem que isso vire manifesto.
O problema não é discordar. Discordar é parte do jogo, sempre foi. O problema é que a discussão sobre futebol virou um lugar vazio —grita-se muito, escuta-se pouco e, no fim, ninguém convence ninguém de nada. É polarização por polarização, debate que não constrói, só desgasta. Trocamos a torcida pelo argumento, e o argumento pela briga, e a briga não leva a lugar nenhum.
Eu queria simplesmente admirar. Ver o Messi de perto, ver o que ele faz com uma bola nos pés depois de 20 anos fazendo isso. E queria poder falar sobre isso sem precisar carregar uma justificativa, sem escudo, sem ter de provar o tempo todo de que lado eu estou.
É engraçado, mas de um jeito triste. Passamos horas discutindo se é certo gostar, e não passamos nenhum minuto sentindo o motivo de gostar. O drible fica em segundo plano. A alegria fica em segundo plano. Em primeiro plano fica apenas a defesa —de um lado e do outro— de uma posição que ninguém pediu pra você ter.
Talvez o problema nunca tenha sido o Messi. Talvez seja a gente, que esqueceu como se gosta de alguma coisa sem precisar defender esse gosto o tempo inteiro.
Eu escolho voltar a gostar sem pedir licença. O resto que discuta sozinho.
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