Não sei se a Copa do Mundo impõe a cada quatro anos uma “relação abusiva em que caímos como patinhos”, como disse o colega Gustavo Alonso, mas eu ando a consultar a programação televisiva a cada vez que meu pobre espírito pede outro álibi ruim para justificar mais uma mancada com o cascalho –ou com o funcional, ou com a ioga– do dia.
Invariavelmente ganham a Costa do Marfim, a Coreia, o Mbappé e o Vozinha, mas não só: levam ainda minha audiência e meu imobilismo o Arnaldo Ribeiro, o Tironi, o Barrinha e seus colegas mais sêniores.
Os brilhantes jornalistas citados acima estrelam o “Posse de Bola”, programa de debates de futebol do UOL, uma das tantas mesas-redondas de formato clássico que agora pululam na internet: sem imagens dos jogos, apenas uma hora ou mais de discussões, especulações, lembranças de Copas pregressas e uma outra notícia mais quente trazida pelos enviados especiais que cobrem in loco o escrete.
Como algo tão velho quanto andar pra frente, que tem pelo menos umas seis décadas de existência na TV brasileira, se considerado a “Grande Resenha Facit” como o programa pioneiro, consegue ser tão bem-sucedido nestes tempos de economia da atenção?
(Não pedi os números ao UOL, mas dou de barato de que o “Posse” está a esmagar por entrar agora em frequência diária e, nos dias em que a seleção joga, duas vezes ao dia, a segunda sessão logo após o prélio.)
O programa tem algo a que talvez devêssemos nos dedicar mais a miúdo: ele valoriza, por óbvio, a argumentação, a concatenação de ideias, tudo isso a quente, sem muito tempo para colas ou roteirização mais estrita. É preciso ainda ser didático, pois o tempo de exposição é relativamente curto.
O programa tem também um pouco de ironia: no matutino desta segunda (22), o “âncora” Tironi, ao responder um comentário de um internauta que dizia que os mandriões ali tinham a melhor profissão do mundo, ou algo que o valha, falou que sorte também é necessária na vida.
Mas o ponto, do qual me afasto, é que se eu fosse responsável por admitir alguém para um posto de trabalho sob minha liderança, ou se eu fosse profissional de RH responsável por seleção, iria exigir alguma defesa argumentativa, mais ou menos como já fazem em seus vestibulares algumas universidades.
E, como um dia já fiz quando não era jornalista precarizado, também iria pedir que o candidato contasse (bem) uma piada, que é para mim a melhor maneira de avaliar como alguém se sai diante de uma situação imprevista.
Essa capacidade argumentativa, e narrativa, é chamada hoje de habilidade socioemocional ou, em português corporativo, de “soft skill”. Dizem que é uma propriedade que deve ganhar mais espaço em tempos de IA.
Por isso, assistir a uma mesa-redonda de futebol em que os comentadores se esforçam para transmitir uma ideia, uma dedução, uma afirmação que tenha algum fundamento na realidade, parece-me muito salutar –mais até do que assistir aos jogos que lhe dão razão de existência.
Maurício Stycer, meu vizinho e outro colega desta Folha, já discorreu mais a fundo, aqui, sobre as mudanças estruturais do jornalismo demandado por essas mesas-redondas, que, ele lembra, são bastante associadas à fanfarronice caricata de comentaristas-torcedores, ou, meu pitaco agora, à manifestação estéril de conhecimento.
Como recitar as escalações de times de campeonatos de mil-novecentos-e-bolinha, algo tão bem satirizado no primeiro “Boleiros”, a franquia cinematográfica de Ugo Giorgetti.
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