“Idade é apenas um número A atitude dele é a mesma de um jovem de 18 anos que está estreando na seleção”.
A fala do técnico da seleção de Portugal, o espanhol Roberto Martínez, em uma resposta direta aos críticos do desempenho do atacante Cristiano Ronaldo, dá um claro aviso: o astro luso chega à sexta Copa do Mundo da carreira respaldado, mas não imune às críticas. Diferentemente de outras edições, o maior artilheiro da história de uma seleção, com 143 gols, agora divide sentimentos.
“Sim, há uma ala anti-Ronaldo e uma pró-Ronaldo em Portugal. E com visões muito radicais”, conta à PLACAR o jornalista português Pedro Cunha, do ZeroZero. “Acho que é um bocadinho do que acontece hoje no mundo, em termos políticos”, completa.
Se a história conta o calvário de craques traídos pelo próprio corpo, CR7 fez uma geração inteira acreditar que um físico exemplar é capaz de tudo. Aos 41 anos, ele não dá pistas de quando deve parar e enfileira recordes. “Quero os 1.000 gols na carreira. É a maior marca que posso atingir no futebol, meu desafio é chegar lá”, disse em entrevista em 2024.
O mau desempenho nos amistosos preparatórios de Portugal para o Mundial, sob o olhar atento da crítica europeia, contudo, voltou a colocar o jogador do Al-Nassr como um nome questionável. O jornal espanhol As o classificou como um enigma, destacando sua dificuldade em marcar gols.
Cristiano Ronaldo passou em branco nos amistosos em Portugal – Paulo Cunha/EFE
Na França, a rádio RMC Sport o colocou como desajeitado por desperdiçar seguidas oportunidades no amistoso contra a Nigéria.
“A sua influência histórica é inegável, não há como lutar contra as marcas. Mas Ronaldo tem 41 anos, joga há três temporadas na Arábia Saudita, que está longe de ser uma liga competitiva, e continua a ter influência na seleção como se tivesse 21 ou 31 anos”, analisa o jornalista Diogo Pombo, do Expresso.
“O que se discute não é a presença de Cristiano na seleção ou não, mas que sua titularidade ainda seja indiscutível, porque ele já não é o mesmo jogador que era, nem sequer aquele que se tornou um homem de gols no Real Madrid. E isto é natural por sua idade. O seu tempo de reação em espaços curtos já não é bom”, acrescenta.
Ronaldo é um colecionador de recordes. Deixou o Real Madrid como maior artilheiro da história do clube, com 450 gols em 438 jogos – média de 1,02 por partida. É ainda o maior goleador da Champions com 140 gols, 11 a mais que Messi, o único capaz de incomodar o reinado do argentino.
Mesmo assim, discute-se em Portugal que o protagonismo dado ao jogador faz com que uma das melhores gerações da história do país não consiga fluir. Com Roberto Martínez, o camisa 7 ganhou o status de intocável. Marcou 25 gols em 32 jogos, mas só não foi titular uma vez.
Cristiano Ronaldo e seus companheiros de Portugal treinam em Palm Beach antes da estreia – Alberto Estévez/EFE
“A equipe já provou em mais de uma ocasião que é capaz de jogar tão bem ou melhor sem Ronaldo do que com ele. Portanto, há aqui algumas coisas que têm de estar em cima da mesa e ser discutidas por Portugal. O país tem uma geração maravilhosa, que tem condições para ser campeã do mundo, e não se pode hipotecar esse desejo por culpa de Cristiano Ronaldo”, afirmou Pedro Cunha.
Outro erro é apontado pelos especialistas nos excessos e exageros, como o fato de ser ele o responsável pela cobrança de todas as faltas, enquanto nomes como Bruno Fernandes e João Neves hoje têm mais qualidade.
“Para mim, não pode haver uma seleção na qual só sabemos quem é o atacante independentemente do momento. O ataque oferece outros nomes muito cotados e bem interessantes, como Gonçalo Ramos ou João Félix, se a opção for por mais mobilidade. Portugal se arrisca a perder uma grande geração pelo desequilíbrio que existe entre a utilização e o papel dominante de CR7 no ataque de Portugal”.
Em 2022, causou enorme repercussão a opção do técnico Fernando Santos por barrá-lo da partida contra a Suíça, no estádio Lusail, pelas oitavas de final do Mundial, para a entrada de Gonçalo Ramos. Os portugueses venceram por 6 a 1, com três gols de Ramos, mas acabaram eliminados nas quartas.
Cristiano Ronaldo, no banco, roubou a cena mesmo diante da execução do hino português – Getty Images
Durante a execução do hino nacional, o ídolo português foi cercado por dezenas de fotógrafos, que ficaram de costas para o gramado para registrar suas reações. Ronaldo cantou o hino, aplaudiu os gols dos companheiros e entrou aos 27 minutos do segundo tempo, após insistentes pedidos dos torcedores.
“Deve ser titular? Sim. Deve sair quando o rendimento está abaixo do expectável? Também. Igual a qualquer outro jogador da seleção”, conclui Pascoal Sousa.
Por Portugal, Cristiano Ronaldo já venceu a Eurocopa de 2016 e duas Nations League, além de marcar 143 gols. Em Copas, são cinco participações, 22 partidas e nove gols marcados. Um dos poucos títulos que ainda não possui.
