O ano era 2017, ainda durante o processo de escolha das sedes da Copa do Mundo de 2026, quando o presidente da Fifa, Gianni Infantino, discursou de forma firme sobre as exigências aos candidatos. “Times que se classificam para uma Copa do Mundo precisam ter acesso ao país. Isso é óbvio. Estamos agora no processo de definir os requisitos da licitação. Há muitos países que têm proibições, restrições de viagem, exigências de visto e assim por diante. É óbvio que, quando se trata de competições da Fifa, qualquer time, incluindo os torcedores e oficiais desse time que se classificar para uma Copa do Mundo, precisa ter acesso ao país, caso contrário, não há Copa do Mundo”, bradou o dirigente ítalo-suíço. Meses depois, a candidatura tripla de Canadá México e Estados Unidos foi declarada vencedora, com 66% dos votos, contra 32% para o Marrocos, no Congresso da Fifa realizado em 13 de junho de 2018, em Moscou, na Rússia.
O discurso de Infantino soava como mero reforço das normas apelidadas de “padrão Fifa” durante a Copa do Mundo no Brasil, em 2014, quando as leis do futebol foram sobrepostas às nacionais. Com cerveja liberada nos estádios e fronteiras escancaradas, a festa rolou solta, em uma atmosfera difícil de ser igualada. Quase uma década depois do discurso na Rússia, faltando dois dias para o início do Mundial da América do Norte, não restam dúvidas de que o dirigente não honrou suas palavras e que sua subserviência ao presidente americano Donald Trump mancha não só seu nome, mas a história de toda a competição inaugurada por Jules Rimet em 1930.
Trump e Infantino tem posado como grandes amigos em diversas cerimônias, algumas que nada tinham a ver com futebol. O dirigente chegou a alugar um escritório para a Fifa na Trump Tower, em Nova York, e a quebrar o protocolo ao deixar o empresário tocar na taça da Fifa, uma honraria concedida apenas a campeões mundiais. O ápice do constrangimento se deu em 3 de dezembro passado, dia do sorteio dos grupos, quando Infantino perdeu a noção do ridículo ao conceder um Prêmio da Paz ao amigo, que andava chateado por não ter vencido, veja só, o Nobel da Paz – enquanto bombardeava embarcações no Caribe. Poucos meses depois de dizer que o troféu de pacifista da Fifa era uma das maiores honrarias de sua vida, Trump lançou ataques coordenados junto a Israel que mataram o aiatolá do Irã, Ali Khamenei. A retaliação iraniana atingiu outros países do Oriente Médio, dando início a uma sangrenta guerra que poderia levar a boicotes, desistências ou exclusões do Mundial.
Infantino seguiu bradando sobre união da “família do futebol” e, até o momento, conseguiu manter o Irã na competição, ainda que em condições deploráveis. O principal jogador da equipe, Aymen Hussein foi interrogado por sete horas no Aeroporto Internacional de Chicago. A equipe terá de realizar bate-voltas (se hospedará no Mexico e jogará nos EUA), além de ter tido ingressos revogados para sua torcida, entre outros absurdos. Se nas Copas de 1998 e 2022, EUA e Irã passarem bonitas mensagens de paz, desta vez as polêmicas não devem cessar. A semana prévia a abertura ainda teve outros vexames, como um árbitro somali barrado, bem como torcedores e jornalistas de diversas nações, rigorosas (e embaraçosas) revistas a atletas e até ameaça de invasão de serpentes venenosas ao CT da Suíça. Isso sem mencionar o valor exorbitante dos ingressos. Mais impressionante do que o autoritarismo yankee é o fato de a Fifa jamais ter considerado trocar de sede, um privilégio que só grandes amigos poderiam receber.
A tabelinha entre cartolas e políticos não chega a ser uma novidade. Historicamente, as Copas foram usadas por governos para projeção e controle: a ditadura argentina, por exemplo, surfou no inédito título em casa para mascarar tensões em 1978. No último Mundial, o Catar mostrou como é possível utilizar do esporte para abafar as denúncias de violações de direitos humanos. Em 2018, era o sanguinário Vladimir Putin quem posava com bolas de futebol para cima e para baixo. Mas é curioso ver como o termo para essa lavagem de imagem por meio do esporte (sportswashing) praticamente sumiu do noticiário envolvendo a América Trumpista (e imperialista). Atualmente, a seleção russa nem sequer pode participar das competições da Fifa, como punição pelo terror da guerra na Ucrânia. A Fifa, afinal, vive dizendo que se deve separar a política do esporte. Apenas quando lhe convém.
Quando a Copa começar, a tendência é que os craques tomem o protagonismo, ainda que a maioria dos americanos não esteja nem aí para o soccer – estão muito mais preocupados com a final da NBA entre New York Knicks e San Antonio Spurs. Mas é de se lamentar que a Copa do Mundo de 2026, aquela que marca a despedida de lendas como Messi e Cristiano Ronaldo, entre outras tantas atrações, fique marcada como a Copa de Trump e seus caprichos, um torneio no qual a isonomia esportiva e a dignidade humana foram tão escanteados. Que, entre mortos e feridos, a “família do futebol” possa se recuperar deste trauma.
