Futebol socioafetivo? Entenda o estilo da Argentina de Scaloni


A sofrida classificação da Argentina sobre Cabo Verde manteve vivo o sonho da “quarta estrela” e deu sequência a uma das trajetórias mais fascinantes do futebol internacional nos últimos anos. Em um roteiro longe do esperado por qualquer torcedor albiceleste, a seleção atual campeã do mundo sofreu, mas mostrou a força de uma equipe vitoriosa, mirando outra taça.

Desde que Lionel Scaloni assumiu a seleção, em 2018, a equipe conquistou duas Copas América, uma Finalíssim e a Copa do Mundo do Catar. Depois do sofrimento diante os estreantes, a equipe voltou a se colocar entre as favoritas ao título em 2026.

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Nas oitavas de final do Mundial deste ano, a seleção se destaca pelo estilo de jogo que parte da valorização da posse de bola, mas que também encontra a tradicional “raça” . Hoje, ainda assim, a Argentina monta a estrutura ideal para potencializar Lionel Messi, o craque do país há cerca de duas décadas.

A Argentina, todavia, também se destaca por algo que ultrapassa o bom trabalho tático: a valorização das relações humanas. Não é incomum, aliás, que cenas do elenco reunido celebrando, rindo ou cantando viralizem. Da mesma forma, o próprio Scaloni é flagrado em momentos de extrema emoção, dando o tom de um elenco unido.

Treinador socioafetivo?

Sempre que fala de futebol, seja em entrevistas coletivas ou exclusivas, Scaloni fala também de pessoas. “Muitos argentinos entendem de futebol, de 4-3-3, de 4-4-2. Mas há coisas fundamentais e que vão para além da tática, da técnica ou da estratégia. Porque se você se dá bem com o outro, quando o outro é seu amigo, você vai se doar muito mais. Eu cresci com isso. Reunimos todos, armamos um mate e começamos a conversar sobre como eles estão, sobre a vida… coisas que talvez outros não façam”, disse o treinador em uma cena da série El Método Scaloni, da plataforma Flow.

Lionel Scaloni, técnico da Argentina – EFE/ Juan Ignacio Roncoroni

Nesta Copa do Mundo, em entrevista coletiva ainda durante a fase de grupos, o argentino voltou a tocar no assunto: “Nos momentos mais difíceis, quem te ajuda seguir em frente é o seu companheiro. Alguns podem dizer que isso não tem nada a ver com futebol, mas eu penso justamente o contrário. Tem tudo a ver. Porque você entra em campo ao lado de alguém que sente as coisas do mesmo jeito que você.”

As ideias se encaixam em um dos conceitos de vantagem na análise do futebol: a superioridade socioafetiva. Essa é a capacidade tática e psicológica que nasce do alto nível de entrosamento entre dois ou mais jogadores, o que permite a antecipação de movimentos e resolução de situações sem a necessidade de comunicação verbal.

Os jogadores aderem ao modelo

Os resultados positivos e o nível alto de desempenho deixam claro que a ideia de Scaloni é bem recebida pelo elenco. Mesmo assim, lideranças do grupo já fizeram questão de deixar isso claro.

Lionel Messi, próximo do treinador dentro e fora das quatro linhas, já reconheceu publicamente esses méritos. Em entrevista à Espn Argentina, em dezembro de 2025, Messi destacou justamente a maneira como Scaloni se relaciona com o elenco.

“O melhor que ele (Scaloni) fez, além de tudo que sabe de futebol, é a conexão com grupo. É a maneira de tratar os jogadores, de como se conectar com cada um. Ele conhece humanamente todos. E sabe exatamente como falar com cada um”, revelou o craque.

Lionel Messi e Lionel Scaloni após o título da Copa do Mundo de 2022 – Luis ROBAYO / EFE

Rodrigo De Paul, outra grande liderança do grupo, voltou a falar sobre Scaloni durante este Mundial. Mas após o título de 2022, em entrevista para a série El Método Scaloni, o meio-campista explicitou: “Scaloni enxerga seres humanos que jogam futebol, não jogadores profissionais. Ele sabe exatamente qual botão apertar em cada um, porque, obviamente, ninguém é igual. Em um vestiário existem personalidades diferentes, histórias diferentes.”

E prossegue: “Com essa relação, você começa a entregar mais do que imaginava. Começa a sentir que quem está falando com você realmente acredita em você, é sincero, olha nos seus olhos e fala a verdade. Fazer da pessoa alguém melhor é fazer do jogador um atleta melhor. Esse é o método.”

Respeito às características

Extrair o melhor de seus atletas, tendo em vista as particularidades, é um pilar do trabalho na Era Scaloni. Muitas vezes, o profissional exime seus méritos, transferindo para os atletas, afirmando que o futebol, no fim das contas, se resume aos jogadores.

Em entrevista à Conmebol, disse: “Sou um treinador que não acredita em um sistema de jogo pensado a partir do treinador. Quem define o sistema são os jogadores. Como Maradona e Messi não jogariam juntos, se foram os dois melhores do mundo? O problema seria dos adversários, não nosso.”

Scaloni é um adepto de um futebol com menos amarras, especialmente na formação de atletas. Em entrevista ao treinador Jorge Valdano, no programa Universo Valdano, refletiu sobre como algumas narrativas podem prejudicar o surgimento de novos grandes jogadores. “Há prejuízos em dizer que o futebol mudou, que o potrero (termo argentino para futebol de rua) não existe mais. Eu converso muito sobre isso com o Pablo Aimar. Hoje precisamos nos preocupar muito mais com quem ensina e como ensina as crianças. O técnico, de certa forma, virou esse potrero”.

Otamendi, Di María, Messi, De Paul e Paredes na saída do carro rumo ao Obelisco

Otamendi, Di María, Messi, De Paul e Paredes comemoram título do Mundial de 2022 – Divulgação / Instagram

E continuou: “Se eu fico o tempo todo dizendo para a criança ‘passa a bola’, ‘joga de dois toques’, estou tirando justamente o que ela tem de melhor: a criatividade. Antigamente, na Argentina, surgiam muitos meias criativos. Hoje, o garoto dribla dois adversários e já escuta: ‘Passa a bola!’. Mas por quê? Se ele passou por dois, pode muito bem fazer o gol. Se ele tem capacidade para marcar quatro gols, deixa que faça. É esse jogador que vai fazer a diferença. A cultura do futebol argentino sempre foi a da picardia com a bola: driblar, superar adversários, dar um lençol, tabelar. Se a gente tentar controlar cada movimento do jogador como se estivesse com um joystick na mão, cometemos um grande erro.”

Em outro trecho de El Método Scaloni, o técnico valoriza os movimentos intuitivos do jogo, ao falar do gol de Ángel Di María na final da Copa de 2022. “Hoje existe treinamento de ‘terceiro homem’, tudo isso. Mas o gol da final não teve nada ensaiado. Isso os jogadores decidem lá dentro, não tem como ensinar. É uma obra de arte feita por eles.”

Valorização das culturas futebolísticas

Lionel assumiu a seleção argentina em 2018, após o Mundial da Rússia, torneio marcado por diversos problemas entre o grupo e o técnico Jorge Sampaoli. Scaloni inicialmente foi interino e, depois, assumiu como efetivo.

De cara, o treinador enxergou um contexto de futebol global que caminhava para estilos de muita transição. Mas, como também disse ao Universo Valdano, o ex-atleta enxergou no elenco outras necessidades.

“Saí da Copa de 2018 com a impressão de que o futebol caminhava para um jogo de transições, com jogadores cada vez mais rápidos. Minha ideia era montar um time assim, mas pensei: ‘Os melhores jogadores argentinos não são desse jeito.’ Jogar bem, para nós, significa fazer os jogadores se aproximarem, criarem associações. Se pedíssemos velocidade o tempo todo e bolas de 30 ou 40 metros, não ia funcionar. O nosso jogo precisava de muitos passes para acontecer. E eu não sou do tipo que diz: ‘Vamos fazer desse jeito porque eu acho melhor.’”, relatou.

Lionel Scaloni, técnico da Argentina - Juan Ignacio Roncoroni/EFE

Lionel Scaloni, técnico da Argentina, durante partida – Juan Ignacio Roncoroni/EFE

Em um discurso com a mesma linha de ideologia, o argentino refletiu em entrevista coletiva durante a Copa do Mundo de 2026, enquanto respondia sobre a crise do futebol italiano. “Hoje parece que só existe uma maneira de jogar de futebol. Eu não acho que seja assim. Cada país tem sua forma de entender o futebol, e isso precisa ser respeitado. Se a Itália perceber que é muito boa nessas coisas, certamente vai voltar ao topo, porque é uma potência.”

Pouco dogmático, Scaloni foge das escolas táticas e coloca as relações humanas no centro do jogo. Em um momento em que o futebol discute cada vez mais sistemas, pressão e ocupação de espaços, o treinador argentino segue outro caminho. Se fosse preciso resumir sua filosofia em um conceito, talvez ele pudese ser definido como futebol socioafetivo.

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Fonte: Placar

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