Haiti x Brasil em 2004: memórias sob tensão do jogo da paz – 19/06/2026 – Esporte


Brasil e Haiti se enfrentam nos EUA na noite desta sexta-feira (19). A seleção de Carlos Ancelotti entra em campo sob clima de desconfiança, após o tenso empate contra Marrocos na estreia da Copa.

Há 22 anos, sob outro peso, desconfiança e tensão também rondavam Porto Príncipe antes do jogo da paz entre Haiti e Brasil. O miserável país passava por distúrbios, um presidente acabara de ser deposto e militares brasileiros sob o comando da ONU estavam lá para conter a onda de violência.

A ida de Lula, ainda em seu primeiro mandato, e de jogadores estrelados então campeões do mundo, como Ronaldo e Ronaldinho, era motivo de preocupação de Exército e segurança presidencial. O Haiti vivia um caos, e comitiva presidencial, delegação da seleção e jornalistas tiveram de se adequar a tudo isso.

Este jornalista, que à época acompanhava o dia a dia da Presidência em Brasília como repórter, foi enviado pela Folha para essa cobertura. Na viagem, estive ao lado dos colegas Sérgio Rangel (repórter que seguia a seleção) e Antônio Gaudério (repórter-fotográfico).

Antes do embarque, todos receberam uma série de vacinas obrigatórias (febre amarela, Sabin, hepatite A, hepatite B, dupla adulto, dupla viral, meningocócica A/C, febre tifóide e antirrábica).

Lula, sua comitiva e toda a delegação da seleção fizeram um bate-volta ao Haiti. Chegaram pela manhã e retornaram logo após o fim da partida. O país tinha rebeldes armados nas ruas e uma infraestrutura precária (isso antes do terremoto que devastaria o país seis anos depois, com saldo estimado de 200 mil mortos).

A passagem-relâmpago foi impactante. Na chegada, ao desembarcar, havia um cheiro forte e desagradável, reflexo da falta de rede de esgoto e de sistema de coleta de lixo. Do lado de fora, na primeira cena vista na rua pela comitiva, um morador se abaixou para beber a água que passava pela sarjeta.

O clima de tensão logo se transformou em espanto dos visitantes. Milhares de haitianos estavam nas ruas para acompanhar a passagem da seleção. Eles se amontoavam em clima de histeria à espera de um aceno dos jogadores, esses posicionados em cima de urutus do Exército.

Fanáticos pelo Brasil, dois anos antes eles haviam obrigado o governo local a decretar dois dias de feriado diante das comemorações pela conquista do pentacampeonato.

A vida de repórter naquele dia também ocorreu sob tensão. O envio das reportagens com todos os relatos sobre a visita presidencial e o jogo da seleção (goleada de 6 a 0) só ocorreram no início da noite graças a uma conexão discada (lembram disso?) a partir de uma linha de telefone disponível em uma cabine do estádio.

A visita ocorreu sem sobressaltos. Com isso, Lula ganhou pontos em sua política externa, os jogadores se emocionaram e os jornalistas enviaram suas reportagens. No fim, foi um alívio geral, algo que a seleção de Ancelotti busca na Copa do Mundo com uma vitória nesta sexta-feira na Filadélfia.



Fonte: Folha UOL

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