A histórica classificação de Cabo Verde aos mata-matas da Copa do Mundo foi acompanhada de uma enorme festa de toda a delegação do arquipélago africano. Ainda nos corredores do NRG Stadium, em Houston, jogadores e integrantes da comissão técnica deixaram o local dançando e cantando ao som de “Ninguém, Ninguém, Ninguém”, música que também tem sido entoada pelos torcedores antes dos jogos.
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A canção interpretada pelo grupo La MC Malcriado foi lançada em 2006 e expressa o orgulho em ser cabo-verdiano, por ser cantada predominantemente em crioulo cabo-verdiano (ou kriolu), língua materna e pilar da identidade cultural de todos os nascidos no arquipélago.
A letra exalta, principalmente, a ideia de que ninguém pode tirar a identidade e a alegria do povo, independentemente das adversidades financeiras. Por isso, repete por três vezes no refrão a expressão “ninguém”.
Torcedores presentes ao NRG homenageiam o goleiro Vozzinha – Sam Wasson/EFE
O próprio título do álbum do grupo, Nos Pobreza Ké Nos Rikéza (Nossa pobreza é a nossa riqueza), dita o tom da canção ao dizer que a verdadeira riqueza do povo não está nos bens materiais, mas sim na sua cultura, união e história.
O grupo, formado em 1998 e composto por artistas franceses de ascendência cabo-verdiana, teve como principal objetivo com a música homenagear a cultura do país por meio de ritmos tradicionais de Cabo Verde, como o funaná e a morna, considerados completamente opostos.
De ritmo mais frenético, o funaná nasceu no interior da Ilha de Santiago, a de raízes mais africanas do arquipélago, e está associado à difícil vida do trabalhador do campo. Por décadas, foi marginalizado e até proibido pelas autoridades coloniais portuguesas.
Técnico Pedro Bubista comanda os cabo-verdianos desde 2020 – Sam Wasson/EFE
Tem como base dois instrumentos: a gaita, que é um acordeão diatônico, e o ferrinho, uma barra de metal que é friccionada por uma faca ou um pedaço de metal. A dança tem movimentos extremamente rápidos.
Já a morna é a alma de Cabo Verde. Reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela Unesco, nasceu na Ilha de Boa Vista, mas ganhou profundidade na Ilha de São Vicente.
É um ritmo mais lento, acompanhado de instrumentação acústica como o violão, o cavaquinho, o violino e uma guitarra de 12 cordas ou um violão de dez cordas. Suas letras expressam a saudade pelo isolamento das ilhas e a dor da emigração – um drama do cabo-verdiano que precisa deixar o país.
Mesmo sem vencer, mas com um futebol eficiente, a equipe alcançou o histórico feito de se classificar à fase de 16 avos de final logo em sua primeira Copa. Antes de confirmar a vaga, o técnico Pedro Bubista afirmou que um êxito poderia inspirar outras nações com alto índice de pobreza a também sonharem alto.
Torcedora de Cabo Verde exibe orgulhosa a faixa com o nome do país, estreante em Copas – Carlos Ramírez/EFE
“Fico satisfeito com a possibilidade de essas equipes, ou desses países, poderem participar. Penso que o futebol é de todos, ou é para todos. Não é só dos países que têm mais condições financeiras, digamos assim. É dos povos também. Então, estamos extremamente satisfeitos com a possibilidade de os menos ricos, digamos assim, terem essa possibilidade de participar. E isso está nos dando razão. Se temos equipes que estão a conseguir, pela primeira vez, principalmente na primeira fase desta competição, que é o torneio mais alto em termos desportivos, temos que estar satisfeitos com isso. E esperamos que a nossa participação, também sendo um país pequeno e pobre, sirva também para os outros países mais pobres e pequenos como nós”, completou.
De acordo com relatórios de desenvolvimento do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), a taxa de pobreza absoluta em Cabo Verde é de 24,75%, e a de pobreza extrema é de 2,28%.

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Cabo Verde agora enfrentará os argentinos, atuais campeões do torneio. O duelo ocorrerá na próxima sexta-feira, 3 de julho, às 19h (de Brasília), em Miami.
