Neymar precisa ser feliz no simples – 29/07/2026 – Marcelo Bechler


Passada a Copa do Mundo, surge a dúvida do que será de Neymar. Na seleção, a curto prazo, o atacante parece decidido a não jogar mais. No “futebol de clube”, a dúvida vem por quais seriam as motivações do jogador para os próximos anos.

Desde que aceitou a proposta para jogar no Al Hilal em 2023 e saiu da cena de elite, Neymar parecia movido pelo sonho de ganhar a Copa. Com esse objetivo distante por pelo menos quatro anos e o contrato com o Santos encerrando-se em dezembro, o futuro parece bastante nublado.

O próprio Neymar não falou no assunto com alguma profundidade. Antes do Mundial falava apenas em cumprir contrato com o Santos. Nada foi dito para 2027. E é exatamente na ausência de um projeto longo que acredito possa estar a chave para continuar jogando.

Os últimos anos, com lesões e corrida contra o tempo para se mostrar apto a jogar a Copa, tornaram cada partida uma batalha analisada com lupa. Todos falavam de seu estado físico, de quantas bolas perdia, de quantos passes conseguia oferecer, de quantos marcadores se desvencilhava. Tudo isso aliado às urgências de pontuação do time do Santos e à dificuldade de seus companheiros em acompanhar e completar seu jogo.

Neymar se estressou e se mostrou ansioso e irritado quase sempre. Contra o Flamengo, na reta final de 2025, teve uma postura agressiva com seus colegas de time. Em 2026 discutiu com torcedores na Vila Belmiro, perdeu a paciência com Robinho Jr. em um treino, bradou contra jornalistas algumas vezes. Parecia à beira de um burnout tentando convencer Carlo Ancelotti de que na seleção tudo seria diferente.

Agora, caso realmente decida não defender o Brasil, não precisará encarar todo jogo como uma prova definitiva. O Santos continua sendo um time com suas urgências, mas o camisa 10 pode se dedicar mais a jogar como quiser do que jogar como quem precisa se encaixar em uma convocação. E aí pode estar a chave para reencontrar a alegria no futebol.

Contra a Chapecoense participou do jogo com 105 intervenções com a bola. Finalizou 9 das 21 tentativas de sua equipe. Fez dois gols. O bom jogo teve também momentos de estresse com adversários (o que lhe rendeu seu sexto cartão amarelo em nove rodadas) e também com seus companheiros, no vestiário.

Este Neymar mais participativo, protagonista e dono do time mostra que não está entregue a um marasmo de meses até que seu contrato expire em dezembro. Mas ainda lhe falta a paz para jogar de forma fluida e natural, reconectando-se com o futebol sorridente e abusado que o caracterizou.

Talvez o que ele precise seja reencontrar a “ousadia e alegria” de outros tempos. Por conta do ambiente do Santos e do futebol brasileiro, com críticos a cada esquina, seja difícil conseguir alguma leveza em 2026. Se quer continuar jogando, parece-me imperativo que o faça sendo feliz. Como as coisas estão, ele não está e não estará.

Em 2027, uma rota de fuga para uma liga menos exigente, onde os craques são “entertainers” talvez seja uma boa saída. Nos Estados Unidos, por exemplo, a diminuição da pressão diária e do sentimento de que o futebol é algo de vida ou morte, poderiam trazer-lhe a paz para jogar que há tanto tempo falta.

Nem entro na discussão de jogar a Copa do Mundo de 2030, mas, caso queira simplesmente se divertir mais um pouco jogando, Neymar precisará voltar a se sentir feliz no simples. Ou ele volta a amar o futebol ou o ambiente do futebol vai engolir seus últimos passos em campo.


LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.



Fonte: Folha UOL

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *