Se a seleção brasileira tiver sucesso na Copa do Mundo, será por muito trabalho nas próximas cinco semanas. Não adianta escutar profetas do apocalipse anunciando a queda, que pode haver, para depois comemorar a profecia. O diagnóstico está claro: o Brasil perdeu quatro anos.
Os últimos 12 meses de Carlo Ancelotti poderiam ter trazido o time mais bem acabado à Copa. E ele comete erros, como convocar 15 jogadores com experiência em perder Mundiais. O técnico italiano também já percebeu que cometeu equívocos na lista final e vai ter de tentar corrigir com o que possui.
A única solução é tornar o time mais leve.
Casemiro não pode jogar com a dureza de uma jamanta fazendo curvas na estrada de Santos. Pode ser substituído por Fabinho; ou Éderson. Danilo, do Botafogo, e Endrick pedem para entrar na equipe. Não com a boca, com os pés.
O maior dilema é a lateral direita. A perda de Wesley e a ideia louca de usar Ibañez na posição obrigam a escalar quem foi à Copa apenas como líder. Danilo é referência para Ancelotti por dizer e mostrar onde há campos minados. Não era para precisar jogar.
Na prática, o grupo de 26 teria só 24 úteis, porque Neymar vai jogar poucas vezes –se jogar– e Danilo, do Flamengo, ficaria no banco.
Se a formação ficar mais leve, há chance de achar o time. Do meio para a frente, digamos: Fabinho, Bruno Guimarães e Danilo Santos; Raphinha, Endrick e Vinicius Júnior.
Durante a estreia contra Marrocos, um jornalista ao meu lado perguntou, com ironia: “Quem será que vai estrear na Copa mais cedo, Raphinha ou Neymar?”. Se Raphinha não engrenar, Luiz Henrique e Rayan são opções.
A verdade nua e crua: vai ter de achar o time.
Houve Copas em que isso aconteceu durante a campanha. O caso mais latente aconteceu em 1958. Depois do empate contra a Inglaterra, o primeiro 0 x 0 da história das Copas, Vicente Feola trocou Dino Sani, Joel e Mazzola por Zito, Garrincha e Pelé. O time ficou leve.
Deu certo.
Vinte anos depois, o Brasil começou a Copa na Argentina empatando e jogando mal contra Suécia e Espanha. O técnico Cláudio Coutinho colocou Jorge Mendonça e Roberto Dinamite nos lugares de Zico e Dirceu. Melhorou, mas não deu tempo de chegar à final.
Acontece. O tempo cobra o preço.
O acerto de Ancelotti está na frase que revela termos um técnico italiano. “Não se ganha a Copa do Mundo no primeiro jogo.” Nesse ponto, ele está cheio de razão, embora pouca gente preste atenção à história.
Dos 22 campeões do mundo, só quatro ganharam todas as partidas: Uruguai (1930), Itália (1938), Brasil (1970) e Brasil (2002). Quer dizer, dos cinco títulos da seleção, três tiveram empates, em 1958, 1962 e 1994.
Das 17 Copas com fase de grupos de três partidas, só Brasil (1970), Brasil (2002) e França (1998) tiveram 100% e depois levantaram o troféu. Nos últimos cinco Mundiais, em que a seleção fracassou, 11 times fizeram nove pontos no início. Nenhum ficou com o título.
Nesta Copa, o Brasil é igual a um estudante do ensino médio, muito inteligente e que não estudou para a prova nos últimos três anos. Agora tem 30 dias para recuperar a matéria e ser aprovado no Enem.
Vai dar trabalho para transformar bons jogadores em um grande time.
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