Seleção brasileira: precisamos entender por que perdemos – 08/07/2026 – Marcelo Bechler


A derrota do Brasil na Copa do Mundo inicia a temporada de autópsia da seleção. Começamos a procurar os culpados, como temos feito desde 2006, mas ainda que eventualmente encontremos, não conseguimos corrigir a rota.

A eliminação vai na conta de Carlo Ancelotti, Bruno Guimarães, Casemiro, Endrick, Vinicius Junior, Neymar, Virginia, pausa para hidratação, Movimento Verde e Amarelo, imprensa, influencers. E até mesmo, pasmem, Haaland.

Para mim, para encontrarmos as respostas certas temos que fazer as perguntas certas. Por que perdemos? Por que tivemos 35% de posse de bola contra a Noruega? Como queremos jogar? Temos jogadores para jogar da forma que o futebol brasileiro se identifica? Qual é essa forma?

A partir daqui talvez cheguemos a alguma conclusão. Perdemos porque futebol é um jogo de muitos erros e poucos acertos. O Brasil perdeu o pênalti e três outras grandes chances, com Endrick, Vinicius e Martinelli. Mas isso é apenas casuístico.

A ideia de jogo me parece mais equivocada do que a execução poderia ter sido. Optamos por defender para tirar os espaços de Haaland. Como o adversário tinha um jogador superveloz, era preciso tirar esta velocidade.

Existem duas formas principais para isso: jogar na defesa, deixando os espaços curtos e obrigando a Noruega a atacar de forma lenta. Essa foi a opção de Ancelotti. Ou jogar no ataque, não deixando o adversário ter a bola para lançar Haaland entre nossos zagueiros. Essa escolha passaria por ter um time ofensivo, bem estruturado e maduro. Não tínhamos.

E por que não tínhamos? Porque o treinador chegou faltando um ano para a Copa do Mundo e não teve tempo de preparar um time capaz de dominar. Destruir é mais fácil que construir, e a ideia era essa.

Ancelotti só chegou em cima da hora porque nós não produzimos técnicos. Quem seria o brasileiro melhor posicionado para assumir a seleção após a renúncia de Tite? Tentamos Fernando Diniz e Dorival Júnior, sem sucesso.

O Brasil é o país que mais exporta jogadores todos os anos, com mais de mil atletas indo para o exterior. Mas não existem técnicos brasileiros trabalhando sequer em clubes medianos mundo afora —agora Filipe Luís tenta romper essa barreira, no Monaco.

Não temos técnicos porque somos uma máquina de decepar ideias. Não há tempo de preparar e amadurecer uma forma de jogar. É preciso buscar o pão de cada dia, uma vitória da forma mais rudimentar que seja, para não ser demitido.

Se não existe paciência para pensar o jogo, também não existe para formar jogadores. Por mais que exportemos milhares, basta ver o perfil dos que se destacam: fortes, rápidos, explosivos.

Qual o jogador brasileiro cerebral e controlador de jogo apareceu nas últimas décadas? Arthur Melo? Breno Bidon? Matheus Martinelli? O jogador talentoso e, talvez menos intenso, raramente consegue chegar à elite. Porque na base também é preciso ganhar o pão de cada dia. Colocar os mais fortes para jogar, conseguir algum destaque e vender para reforçar o caixa de clubes falidos.

A soma de não ter técnicos e precisar esperar Ancelotti, o tempo que fosse, com o fato de não termos jogadores capazes de controlar o jogo no meio-campo resulta em ter que jogar na defesa contra a Noruega. E, a partir daí, ficar mais à mercê do acaso do que deveria acontecer, caso o jogo fosse inclinado para que o talento brasileiro gerasse mais preocupação ao técnico norueguês do que o contrário.

Perdemos mais uma vez. Em 2030, estaremos na esquina de ficar 30 anos sem uma Copa do Mundo. Maior jejum da história. Ou tomamos coragem para responder às perguntas difíceis ou vamos seguir mais reféns da sorte ou do azar do que poderíamos.


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Fonte: Folha UOL

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