Messi, Djalminha e os gênios da objetividade


Djalma Feitosa Dias, o popular Djalminha, dono de um dos pés esquerdos mais talentosos do futebol entre os anos 90 e início dos 2000, costuma responder com uma tirada espirituosa quando perguntado sobre a genialidade de Lionel Messi: “chega a ser chato, ele não dá uma caneta ou lençol para trás, é objetivo demais”. A brincadeira já foi dita algumas vezes pelo maestro brasileiro em programas de TV e contada  ao próprio Messi, durante encontro no último Mundial de Clubes da Fifa nos EUA, após a vitória de seu Palmeiras sobre o Inter Miami do argentino.

Djalma teve o privilégio de rever o camisa 10 em Kansas City de um ângulo privilegiado: como repórter da Cazé TV, permaneceu atrás do gol onde Messi cravou três gols em um jogo de Copa do Mundo pela primeira vez e alcançou o alemão Miroslav Klose como o maior artilheiro dos Mundiais, com 16 tentos, na última terça-feira, 17. O terceiro teve ares de eterno replay: como fez algumas centenas de vezes, Messi dominou, ajeitou para a perna canhota tirando do marcador e bateu colocado, com curva e força perfeitas, no cantinho do goleiro da Argélia, Luca Zidane, filho de nosso carrasco francês, que desta vez nada podia fazer.

Nelson Rodrigues (1912-1980), o mais genial de nossos cronistas, era um feroz crítico daqueles a quem chamava de “idiotas de objetividade”. Refutava o uso excessivo do termo e rejeitava as leituras do mundo de forma literal, fria. Usou como exemplo o fato de os jornais da época terem noticiado o suicídio do presidente Getúlio Vargas em 1954 sem “pingar uma lágrima sobre seu corpo.” “A reportagem, sem entranhas, ignorava a pavorosa emoção popular”, escreveu Rodrigues em O Homem Fatal.

Djalminha, que é filho de outro craque, Djalma Dias (1939-1990), cuja carreira por clubes e seleção foi amplamente coberta por Nelson Rodrigues, certamente bebeu desta fonte. É apontado como ídolo por nove entre dez meias que o sucederam por sua visão de jogo, habilidade e magia. Dava canetas, lençóis e carretilhas, para trás, para a frente e para o lado, e enxergava tudo um segundo antes dos outros. Sentia prazer em desmoralizar os oponentes. Foi um artista da bola, sem dúvidas, mas nunca teve a objetividade como forte, e justamente por isso (além de questões de comportamento) jamais disputou a competição em que Messi segue fazendo história.

O ex-jogador formado no Flamengo, com passagens marcantes por Guarani, Palmeiras e La Coruña, somou 173 gols na carreira, muitos deles de pênalti, com suas impiedosas cavadinhas. Um número notável para um meia, mas bem abaixo de seus concorrentes Rivaldo (425 gols) ou Alex (391, sempre com dados do site O Gol). Djalminha, portanto, se assemelhou mais a seu pupilo, Ronaldinho Gaúcho, do que a seu mestre,  Zico, que em entrevista à PLACAR disse que foi menos habilidoso que craques como Neymar e R10, mas mais objetivo – e, exatamente por isso, a meu ver, mais jogador.

Para delírio de Djalminha, Zico e todos aqueles que admiram o futebol bem jogado, Messi uniu, e segue unindo, aos 38 anos, magia e efetividade. Assisti-lo é um deleite, ainda que Messi não perca tempo com malabarismos desnecessários. Dia desses esbarrei em um vídeo em que um jornalista argentino pergunta a Messi qual dos truques de futebol freestyle o craque não seria capaz de fazer. Deixando a habitual humildade de lado, o recordista de títulos no futebol (46) sorriu: “Nenhum”. É evidente, com a perna esquerda que Deus lhe deu, o gênio nascido em Rosário poderia executar qualquer firula (ou lujo, como dizem seus compatriotas). Não o faz porque não quer, nem precisa. A objetividade com a qual marcou 915 gols e distribuiu mais de 400 assistências, sem falar nas outras barbaridades que não terminaram na rede, é das coisas mais belas e empolgantes que o esporte já produziu.

Um pecado que muitos cometem, talvez o próprio Djalminha, é o de crer que o êxito de Messi seja fruto “apenas” de um dom divino. Assim como seu antagonista Cristiano Ronaldo não chegaria onde chegou se não tivesse um raríssimo talento, o argentino tampouco teria tamanha longevidade e eficácia não fosse por muito trabalho e dedicação. Basta ver como Messi tornou-se um exímio batedor de faltas já na segunda metade da carreira. Ou como passou a fazer mais gols como o terceiro diante da Argélia, com uma finalização certeira da entrada da área, numa fase em que as pernas já não o permitem costurar defesas como antes. É dom com repetição. Que sorte a nossa poder seguir assistindo ao maior gênio da objetividade.





Fonte: Placar

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