O goleiro Orlando Gill passou por momentos muito difíceis, mas agora se tornou o herói do Paraguai na Copa do Mundo 2026.
Com seus quase 2 metros de altura, ele defendeu dois pênaltis e garantiu a vitória por 4 a 3 nas cobranças sobre a Alemanha –após empate em 1 a 1 no tempo regulamentar–, classificando a seleção paraguaia para as oitavas de final.
Aos 26 anos, Gill tem sido um dos grandes destaques entre os goleiros deste Mundial. Mas, poucos meses atrás, era praticamente um desconhecido.
Até janeiro de 2025, ele havia disputado apenas três partidas pela equipe principal do San Lorenzo, da Argentina.
Menos de quatro anos antes, chegou a vender o próprio uniforme para sustentar a esposa e o filho, que enfrentou complicações de saúde após nascer prematuro.
Um herói dentro de casa
Gill passou pelas categorias de base dos clubes paraguaios Club 13 de Junio e CS San Lorenzo.
No início de 2019, foi convocado para defender a seleção paraguaia no Campeonato Sul-Americano Sub-20. E estreou na equipe principal do San Lorenzo em setembro de 2020.
Ele havia disputado apenas duas partidas como profissional quando sua esposa, Melissa Ávalos –com quem se casou em janeiro de 2021– engravidou em 2022.
O nascimento do filho era esperado para 31 de dezembro de 2022. No entanto, devido a complicações de saúde, Melissa precisou ser internada, e os médicos induziram o parto em 7 de dezembro.
Mas o bebê, chamado Lautaro, só nasceu no dia seguinte. Devido a graves complicações, Melissa precisou passar por uma cirurgia de emergência, enquanto o recém-nascido permaneceu internado na UTI.
A família conseguiu voltar para casa a tempo do Natal, mas passava por dificuldades financeiras.
“Não tínhamos nada, e o Orlando vendeu as roupas do clube em que jogava na época para conseguir pagar as despesas”, escreveu Melissa no Instagram no ano passado.
Ela também relatou o esforço do goleiro para sustentar a família durante aquele período.
“Nosso filho lutou pela vida, e o pai dele esteve sempre ao nosso lado. Vendeu tudo: vendeu a camisa da seleção sub-20, que nem pôde guardar de lembrança, vendeu suas roupas, seus tênis. Literalmente vendeu tudo”, contou.
Um herói em campo
Cerca de um ano após o nascimento do filho, e depois de ter disputado apenas duas partidas como profissional, Gill recebeu a oportunidade que mudaria sua carreira.
O San Lorenzo de Almagro, da Argentina, apostou no goleiro e o contratou por empréstimo.
Ele encerrou 2024 entre os reservas e só se firmou como titular do time principal em 2025. O desempenho chamou a atenção do técnico da seleção paraguaia, Gustavo Alfaro.
Após ser convocado nas datas Fifa de março e junho, e com o Paraguai já classificado para a Copa do Mundo, Gill estreou pela seleção principal na última partida das Eliminatórias, contra o Peru, em setembro.
A partir daí, disputou cinco amistosos e conquistou a vaga de titular para o Mundial.
A estreia de Gill em Copas do Mundo começou com um tropeço: o Paraguai foi goleado por 4 a 1 pelos Estados Unidos, um dos países-sede do torneio.
Desde então, porém, o goleiro sofreu apenas um gol em três partidas –incluindo a prorrogação contra a Alemanha– e defendeu 16 dos 17 chutes que foram na direção do gol.
Na disputa de pênaltis que garantiu a classificação paraguaia, Gill fez duas grandes defesas e foi eleito pela Fifa o melhor jogador da partida.
O prêmio foi dedicado à família, especialmente ao sobrinho Alexander, que, segundo o goleiro, está internado no Paraguai.
Depois de ver o próprio filho sobreviver a um parto repleto de complicações, Gill agora tenta transmitir força ao sobrinho enquanto segue escrevendo, ao lado da seleção paraguaia, uma das histórias mais improváveis desta Copa do Mundo.
“Esta classificação é para um sobrinho meu que está passando por um momento muito difícil e está internado. Espero que ele melhore logo. Eu prometi que, se fosse eleito o melhor em campo, dedicaria esta classificação a ele”, afirmou o jovem goleiro.
