Copa de pênaltis perdidos: a paradinha virou um problema? – 10/07/2026 – Esporte


Independentemente da campanha da França terminar ou não com o título mundial, poucos vão se lembrar do pênalti desperdiçado por Kylian Mbappé na vitória por 2 a 0 sobre o Marrocos, pelas quartas de final da Copa do Mundo 2026.

O jogo, disputado em Massachussets, nos Estados Unidos, ainda estava empatado sem gols quando Mbappé sofreu pênalti cometido por Noussair Mazraoui.

Na cobrança, o capitão francês fez a tradicional “paradinha”, olhou para o goleiro Yassine Bounou e bateu fraco, facilitando a defesa do marroquino.

O atacante, porém, se redimiu aos 15 minutos do segundo tempo, quando marcou um belo gol em chute colocado que finalmente rompeu a defesa marroquina. Seis minutos depois, Ousmane Dembélé ampliou o placar e garantiu a classificação francesa para a semifinal.

Ainda assim, o erro de Mbappé –algo incomum para um dos artilheiros da Copa– reacendeu um velho debate no futebol: chegou a hora dos jogadores abandonarem a “paradinha” nas cobranças de pênalti?

Na lista das coisas que os defensores do futebol tradicional mais detestam no jogo moderno, a “paradinha” nas cobranças de pênalti ocupa lugar de destaque, ao lado das luvas usadas com camisas de manga curta, das simulações e, claro, do árbitro de vídeo (VAR).

Embora não exista uma definição rígida do que caracteriza uma “paradinha”, as regras da Fifa permitem que o cobrador desacelere ou faça uma finta durante a corrida, desde que não pare completamente antes de chutar.

A técnica está longe de ser novidade. Nomes como John Aldridge, o mexicano Hugo Sánchez e Pelé já recorreram ao recurso para tentar ganhar vantagem sobre o goleiro.

Mas a estratégia também pode dar muito errado quando o goleiro resiste à tentativa de ser enganado e espera até o último instante para escolher em qual canto pular.

Na Copa do Mundo de 2026, Mbappé juntou-se a Bruno Guimarães, Jørgen Strand Larsen, Lionel Messi e Harry Kane –embora o inglês tenha convertido na repetição do pênalti contra a Croácia, desta vez sem interromper a corrida– na lista de estrelas que desperdiçaram cobranças após recorrerem à “paradinha”.

Dos 26 pênaltis cobrados com “paradinha” neste Mundial –incluindo disputas por pênaltis– apenas 15 terminaram em gol. Os outros 11 foram desperdiçados, o que representa um aproveitamento de apenas 57%.

Entre os 35 pênaltis cobrados sem “paradinha”, 24 terminaram em gol, um aproveitamento de 68%.

“Essa cobrança com paradinha parece ter sido decifrada. Os goleiros parecem ter encontrado uma forma de neutralizá-la”, afirmou o ex-jogador inglês Ian Wright, em comentário à ITV.

Nem todos, porém, fracassaram com a estratégia. Marko Arnautovic, Raúl Jiménez, Neymar, Cristiano Ronaldo, Yoane Wissa, Kai Havertz e o próprio Mbappé conseguiram marcar utilizando a técnica.

De forma geral, esta tem sido uma Copa do Mundo ruim para os cobradores de pênalti.

Ao todo, 30% dos pênaltis marcados durante o tempo normal ou a prorrogação foram desperdiçados, o segundo maior índice desde o início da série histórica, em 1966.

Quando as disputas por pênaltis também entram na conta, o percentual de erros sobe para 35%, o pior já registrado em uma Copa do Mundo desde 1966.

“Sem dúvida, é mais difícil converter um pênalti hoje em dia. O motivo é que os goleiros estão maiores e mais atléticos”, disse o ex-ponta escocês Pat Nevin à BBC Radio 5 Live.

“Se o goleiro pula para o lado certo, você precisa colocar a bola no canto com muita precisão e força – e, mesmo assim, ela ainda pode ser defendida.”

“Um pênalti muito bem batido já não é mais garantia de gol. Por isso, os jogadores precisam repensar a estratégia. A ideia da paradinha é justamente fazer o goleiro cair para o lado errado.”

“Além disso, os goleiros têm acesso a muitos dados. Eles sabem como praticamente todos os cobradores costumam bater. Não há mais como esconder sua preferência. É uma batalha constante para descobrir quem consegue obter vantagem.”

Esta foi apenas a segunda cobrança de pênalti desperdiçada por Mbappé com a camisa da França. Ao todo, o atacante converteu 14 das 16 penalidades que cobrou pela seleção.

No futebol de clubes, seu aproveitamento é um pouco inferior: são 50 gols em 62 cobranças.

Do outro lado, porém, estava um especialista. O goleiro marroquino Yassine Bounou só sofreu gol em duas das nove cobranças de pênalti que enfrentou em Copas do Mundo –incluindo disputas por pênaltis. Durante esse período, defendeu quatro cobranças e viu outras três serem desperdiçadas.

Na partida desta quinta-feira, Mbappé pode ter sido prejudicado pela longa espera antes da cobrança. Uma checagem do VAR fez com que 3 minutos e 12 segundos se passassem entre a marcação do pênalti pelo árbrito e a defesa de Bounou.

O jornalista francês Julien Laurens afirmou à BBC Radio 5 Live que o erro do atacante foi consequência da “quebra de sua rotina habitual”.

“Foi um pênalti horrível. A rotina é muito importante no futebol. Aquela espera claramente desconcentrou Mbappé. Achei que, quando recebeu autorização para cobrar, ele bateu rápido demais.

Laurens ainda elogiou o goleiro marroquino. “Foi um chute fraco, fácil para Bounou defender. Ele é o melhor goleiro do mundo quando o assunto é defender pênaltis.”

O ex-volante irlandês Roy Keane também criticou a demora provocada pela revisão do VAR.

“É injusto um jogador ter de esperar mais de três minutos para cobrar um pênalti. Eu sei que estamos falando de atletas de elite, mas é uma situação de enorme pressão. Por que ele precisa esperar tanto?”

Segundo Keane, o tempo acaba favorecendo quem está no gol.

“O tempo é o inimigo do atacante. A vantagem acaba voltando para o goleiro e para o time que sofreu o pênalti.”

Ian Wright concorda e acrescenta: “Quanto mais tempo você tem de esperar para cobrar um pênalti, mais começa a duvidar do que vai fazer.”



Fonte: Folha UOL

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