Pelo Tricolor e contra a própria pátria


Reavivando a ligação histórica do São Paulo com o futebol uruguaio, e como forma de aquecimento no pré-jogo de Espanha versus Uruguai pela Copa do Mundo de 2026, o Arquivo Histórico resgata um grande jogo ocorrido em 1974, onde Pedro Rocha e Forlán defenderam o Tricolor contra a seleção do próprio país.

Faltando poucos dias para a Copa do Mundo de 1974, a Seleção do Uruguai solicitou ao São Paulo a liberação de Forlán e Pedro Rocha, atletas convocados, para concentração e amistosos preparatórios. Por essa cessão, a associação uruguaia e o Tricolor combinaram um jogo amistoso beneficente no Estádio Centenário, em Montevidéu.

O São Paulo vinha embalado, estava invicto há 18 partidas. Não sabia o que era derrota desde fevereiro, quando foi superado pelo Cruzeiro por 1 a 0 no Mineirão. Havia acabado de vencer o Jorge Wilstermann, em casa, por 5 a 0, em disputa válida pela Copa Libertadores da América, onde liderava o seu grupo — naquela temporada o São Paulo viria a ser vice-campeão da competição.

A delegação, composta por Waldir Peres, Getúlio, Nelson, Samuel, Arlindo, Gilberto Sorriso, Chicão, Pedro Rocha, Mauro, Piau, Serginho Chulapa, Teodoro, Zé Carlos, Mirandinha, Gésum, Mauro e Silva, embarcou para o país vizinho no dia 9 de maio. Lá, ainda teriam tempo para um treinamento físico e para Poy decidir a escalação. O Tricolor estava desfalcado de Terto, Ademir e Paranhos. Piau estava com os olhos inflamados e também não era certo que jogasse, mesmo compondo o elenco. 

Na capital uruguaia, os dirigentes locais tentaram convencer a comitiva tricolor a deixar Pedro Rocha e Pablo Forlán atuarem pela Celeste, ou ao menos um tempo de jogo em cada time. Não houve acordo: jogariam pelo Tricolor, inclusive Forlán, que já se encontrava no Uruguai e havia se apresentado à seleção, tendo atuado contra a Irlanda.

O ADVERSÁRIO

O Uruguai, cabeça de chave da Copa do Mundo daquele ano por ter sido semifinalista da competição em 1970, havia vencido a Seleção da Irlanda, no dia 8 de maio, em casa, por 2 a 0, com dois gols de Morena. Era a oitava partida preparatória da equipe, mas somente a primeira de Forlán junto a eles.

Os destaques daquele time uruguaio eram, além de Rocha e Forlán, o goleiro Mazurkiewicz, do Atlético Mineiro, os meias Cubilla e Castillo (esses não atuariam no amistoso), além do lateral Pavoni — que faria o único gol da Celeste na Copa do Mundo daquele ano.

A equipe não era unanimidade no Uruguai (e como os resultados da Copa viriam a demonstrar, com razão) e também por isso a imprensa local aprovou a realização do amistoso contra o forte Tricolor, afirmando que seria o teste ideal e mais difícil de toda a preparação da Celeste. A expectativa para o jogo foi grande. Mobilizada, a torcida adversária lotou o Estádio Centenário: 55 mil pagantes, mais de 70 mil presentes.

O JOGO

Emoção desde o início” – Essa foi a chamada da reportagem do O Estado de São Paulo, de 12 de maio, sobre o jogo ocorrido no dia anterior, em Montevidéu. Destaca ainda que o jogo foi “definido como ‘empolgante’ pelos próprios comentaristas locais“. Foi muito mais que isso.

Logo aos três minutos de bola rolando, Waldir Peres fez uma defesa espetacular após o chute do lateral Pavoni. O São Paulo se acertou em campo, porém, e com um toque de bola cadenciado passou a
controlar a partida.

O Tricolor atuava em um ‘4-2-4 clássico’, da época, para tentar furar o sistema uruguaio que, apesar de fortemente defensivo, não impedia que ameaçassem a meta do goleiro são-paulino. O primeiro tempo chegou ao fim sem os zeros deixarem o placar, mas não por falta de oportunidades dos dois lados.

Pouco após o recomeço do jogo, aos três minutos, o lance decisivo da partida, o momento épico e inesquecível para quem lá esteve presente: Pablo Forlán lançou a bola para Pedro Rocha, que avançou adentro da área da Celeste, cara a cara com o goleiro, e a desviou sutilmente para o fundo do gol. Gol do São Paulo, gols dos uruguaios do Tricolor!

Após o minuto de silêncio e a salva de palmas decorrente, o restante do jogo passou ofuscado. O Uruguai partiu desesperadamente ao ataque, mas todos foram contidos pela defesa são-paulina, principalmente pelo goleiro Waldir Peres. Mesmo a expulsão de Gilberto, ao fim do jogo, não pôs risco ao placar.

No dia seguinte à partida, os jornais uruguaios destacavam o valor do embate e o desempenho do São Paulo, “digno representante da escola brasileira”, mas principalmente a atuação de Pedro Rocha, naquele dia em que o capitão marcou um gol contra a própria pátria. 

ELOGIOS

Em suas edições de ontem, os matutinos de Montevidéu elogiaram a atuação do São Paulo que, no sábado, derrotou por 1 x 0 a seleção nacional do Uruguai em preparativos para o Mundial na Alemanha, ressaltando a habilidade e o preparo físico dos jogadores brasileiros. Acrescentaram que os 55 mil espectadores presentes ao espetáculo não se viram defraudados, já que o jogo apresentado pela equipe brasileira foi técnico e, em certos momentos, de alta eficácia tática.

“El Dia”, sob a manchete “Mais concentrado o São Paulo venceu e foi um sparring útil”, disse que um empate teria refletido melhor o desempenho das equipes, mas que a vitória dos visitantes foi justificada devido à atuação do atacante Pedro Rocha. Por outro lado, “La Mañana” cita que, em conjunto, os uruguaios deram uma boa e disciplinada versão. Depois de afirmar que o jogo serviu muito para que a seleção corrigisse as suas falhas, o mesmo jornal ressaltou as virtudes do time do São Paulo, “um digno representante da escola brasileira” acrescentando que seus jogadores mostraram um jogo limpo e por vezes bonito. “Perdemos ritmo e eficiência e o São Paulo venceu bem”, afirmou “El País”. Lembrou que faltam algumas estrelas à equipe uruguaia, principalmente Pedro Rocha, que atuou pelo São Paulo e marcou o gol da vitória. De um modo geral, a imprensa salientou a atuação de Rocha, Forlán, Chidea e Waldir Peres entre os vencedores e de Pavoni, Masnik, Corbo e Gonzalez do time uruguaio.

A Tribuna, 13 de maio de 1974

SELEÇÃO DO URUGUAI 0 x 1 SÃO PAULO
11/05/1974. Sábado (16h).
Troféu Dr. Cyro Ciambruno: Jogo Único.
Montevideo (Uruguai), Estádio Centenário.

SPFC: Waldir Peres; Pablo Forlán (Nelson), Samuel, Arlindo e Gilberto Sorriso; Chicão e Pedro Rocha; Mauro Madureira, Mirandinha, Zé Carlos e Piau (Teodoro). TÉCNICO: Jose Poy. GOL: Pedro Rocha, 3/2. EXPULSÃO: Gilberto Sorriso.

RIVAL: Héctor Santos; Mario González, Gustavo de Simone, Juan Masnik e Elbio Pavoni; Alberto Cardaccio (Eliseo Rivero) e Walter Mantegazza; Julio César Jiménez, Fernando Morena, José Gómez e Romeo Corbo (Denis Millar). TÉCNICO: Roberto Porta.

ÁRBITRO: Hector Borra (Uruguai).
RENDA: 50.000.000,00 de pesos.
PÚBLICO: ~55.000 pagantes, ~70.000 presentes

Por Michael Serra / Arquivo Histórico João Farah





Fonte: SPFC

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