A ditadura das marcas nos uniformes – 26/06/2026 – PVC


Deu polêmica a suposta mudança da camisa do goleiro Alisson no jogo contra a Escócia. Após a divulgação de que seria vermelha, o goleiro entrou de camiseta verde. Houve quem disse que foi o presidente da CBF, Samir Xaud, que teria vetado o uniforme, mas a informação mais correta é que a coleção tem cor-de-rosa com o logo da Jordan, portanto usado apenas quando o Brasil jogar de azul.

Não é vermelho. É rosa.

Por uma semana se voltou a pensar na ideia de jerico, aceita pelo ex-presidente da CBF Ednaldo Rodrigues, de fazer a seleção jogar com uma cor ausente da bandeira nacional. Imagina a polarização, em ano de eleição, se o Brasil tivesse uma camisa amarela e outra vermelha.

O amarelo é a cor do Brasil, não de nenhuma facção política. Era símbolo da campanha Diretas Já. Portanto, emblema das Diretas, não da direita.

Se aceitasse usar uma cor diferente da bandeira nacional, o Brasil faria uma concessão não a Ednaldo Rodrigues, mas à Nike. Repare como virou moda na Copa do Mundo os uniformes que não têm nada a ver com os países nas camisetas reservas.

O uniforme um, tradicional. O dois, nada a ver com nada.

A ditadura das marcas —Adidas, Nike, Puma, Marathon— faz a Alemanha jogar com um azul esverdeado, Canadá, México e Noruega, de preto, o Brasil, com meias pretas quando veste um azul misturado com negro, e a França de verde piscina.

A decisão comercial parece ser repetir o que fazem os clubes. Desde o final da década de 1980, os uniformes número três passaram a ser alternativas para vender mais, sob o pretexto da necessidade de mudar peças para não coincidirem cores de calções e meias.

O Napoli de Maradona tinha camisa vermelha em 1989 e 1990. O Manchester United, azul claro, da cor do rival Manchester City, e o City, vermelho e preto. A moda chegou ao Brasil. Quando o Santos tem de colocar calção preto como visitante, prefere jogar de azul claro.

Não é que nas seleções isso não possa acontecer. A Alemanha sempre jogou com camisas brancas e calções pretos, embora a bandeira tenha vermelho e amarelo, não branco. Aprendemos que a Itália é azul por causa da Casa de Savoia, assim como a Holanda homenageia a família real, Orange, ao se vestir de laranja.

Nesses casos, é tradição. No Dia do Rei, os holandeses vão às ruas festejar vestidos de laranja e a cor nacional pinta o país, cuja bandeira é vermelha, branca e azul.

A Espanha foi campeã mundial vestida de azul escuro. Embora os espanhóis não tenham reclamado, a cor remete à bandeira dos falangistas, franquistas que chegaram ao poder depois da Guerra Civil e fizeram a Fúria jogar de azul até 1947. Só a partir dali a camiseta titular voltou a ser vermelha, cor do país, com calções azuis.

Sem um vínculo, a tradição ou a bandeira, não há sentido haver jogos entre seleções que já têm 24% dos jogadores defendendo países que não são os seus. O melhor jogador do México na Copa, Julián Quiñones, é colombiano e jogou de preto contra a República Tcheca. Tudo bem, é a modernidade.

É muito mais legal ver o Brasil jogando de camiseta amarela, calção azul e meia branca e a Argentina de camisas azuis-celestes e brancas. Se tiver de mudar, a decisão deveria ser do país. Não das marcas fornecedoras de equipamentos esportivos.


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Fonte: Folha UOL

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