Neymar está recuperado da lesão na panturrilha direita que o manteve mais de um mês longe dos gramados e, enfim, pode estrear na Copa do Mundo de 2026 nesta quarta-feira, 24, contra a Escócia, no Hard Rock Stadium, em Miami, a partir das 19h (de Brasília).
O adversário traz recordações marcantes, boas e ruins, para o astro, hoje com 34 anos. Em 27 de março de 2011, no início de sua trajetória com a seleção, Neymar marcou os dois gols da vitória por 2 a 0 do Brasil sobre a Escócia, em amistoso no Emirates Stadium, em Londres. Nesta mesma partida, foi extremamente vaiado pelo público britânico, que o acusou de simular faltas. Nascia ali a fama mundial de cai-cai que perseguiria o prodígio do Santos ao longo de toda a carreira.
Diante de mais de 53 mil espectadores, Neymar, então com 19 anos e vestindo a camisa 11, teve uma atuação brilhante. A esta altura, o craque do Peixe, ostentando um marcante penteado moicano, já começava a ganhar as manchetes pelo mundo, em meio a especulações de uma possível venda para o futebol europeu.
Neymar durante jogo amistoso entre Escócia x Brasil, no estádio Emirates – EMILIANO CAPOZOLI
Jogando no ataque ao lado de Leandro Damião, Neymar não se intimidou com a perseguição da torcida escocesa e inglesa e abriu o placar placar no fim do primeiro tempo, com um toque de categoria após passe de André Santos. O segundo veio de pênalti, sofrido por ele próprio, ai ser derrubado por Charlie Adam na área.
À medida que se destacava em campo diante da truculência escocesa, Neymar era cada vez mais vaiado e xingado no Emirates. O jogo em Londres ainda registrou um ato de racismo, já que uma casca de banana foi atirada no gramado. O Brasil foi a campo com Julio Cesar, Daniel Alves, Lúcio, Thiago Silva, André Santos; Lucas Leiva (Sandro), Ramires, Elano (Elias) e Jádson (Lucas); Neymar e Leandro Damião (Jonas).
Vaias contra Escócia e capa com ‘crucificação de Neymar’
Em outubro de 2012, a fama de cai-cai de Neymar motivou uma das capas mais polêmicas de PLACAR, na qual o jogador apareceu crucificado, o que levantou um acalorado debate sobre religião.
“Chamado de cai-cai, o craque brasileiro vira bode expiatório em um esporte onde todos jogam sujo”, foi a chamada de capa sobre a “Crucificação de Neymar.” A reportagem assinada por Breiller Pires, portanto, ponderava o excesso nas críticas à revelação do Peixe e da seleção brasileira, especialmente por parte da imprensa internacional.
“O melhor jogador brasileiro, estigmatizado pelo rótulo de cai-cai, enfrenta um linchamento hipócrita e demagógico em um esporte que estimula a vitória a qualquer preço”, dizia um dos trechos do texto, escrito pouco depois da Olimpíada de Londres-2012, em que o Brasil ficou com a prata e novamente foi perseguido pela torcida britânica. O episódio contra a Escócia mereceu destaque especial:
“As vaias dos britânicos a Neymar durante a Olimpíada não foram novidade para o atacante. Em março do ano passado, ele já havia sido alvejado em um amistoso contra a Escócia no Emirates Stadium. Não se trata de reações isoladas ou dirigidas somente ao jogador: no Reino Unido, onde os valores do fair play são parte importante da cultura esportiva, poucas coisas irritam tanto a torcida quanto simulação. “Divers [mergulhadores, em inglês, e termo utilizado no país em referência a jogadores cai-cai] são bem impopulares – muitos torcedores consideram isso um crime maior que dar um soco no adversário”, diz o jornalista Paul Doyle, do jornal britânico The Guardian. Logo em seus primeiros jogos no país, Ramires sentiu a insatisfação da torcida do Chelsea quando ia ao chão após uma dividida.”
A reportagem da época ouviu o escritor Alex Bellos, que por cinco anos foi correspondente do Guardian no Brasil, e considerava que jogadores sul-americanos são injustamente tachados de cai-cai na Inglaterra “Quando um sul-americano se joga, a imprensa o qualifica com clichês racistas. Mas, quando um britânico simula, tende a dizer algo como `deslize profissional””, afirmou. Para o editor da revista FourFourTwo, Hitesh Ratna, a impressão do torcedor inglês era de que os brasileiros são mais propensos a simular que os ingleses. “Isso é baseado na noção distorcida de que jogadores britânicos não simulam, quando isso claramente não é verdade”, afirmou. O texto na íntegra pode ser lido aqui.
Diante da Escócia, Neymar espera iniciar sua quarta Copa do Mundo pelo Brasil. O atacante participou normalmente dos últimos dois treinos da seleção brasileira e, ainda que comece no banco de reservas, deve entrar no segundo tempo da partida, conforme sinalizou o técnico Carlo Ancelotti. O terceiro jogo da primeira fase vale a liderança do Grupo C, que atualmente a seleção brasileira divide com Marrocos, ambos com 4 pontos.
Neymar, do Brasil durante jogo amistoso entre Escócia x Brasil, no estádio Emirates – EMILIANO CAPOZOLI /PLACAR
